Untitled Document Athenea Digital. número 4- Otoño 2003

Spink, Mary Jane (2003)
Psicologia Social e saúde- Prática, saberes e sentidos. Petrópoliz: Vozes



Vera Sonia Mincoff Menegon
Milagros C. García Cardona

Programa de Estudios de Postgrado en Psicología Social
Pontificia Universidad Católica de San Pablo (PUC/SP), Brasil

Versión en castellano

A formação do campo da Psicologia da Saúde trouxe contribuições relevantes para a área da saúde em geral, alinhando-se ao conjunto de saberes e fazeres produzidos por diferentes disciplinas que atuam na área. A inserção de psicólogos nos variados serviços de saúde representa um espaço aberto ao questionamento de dicotomias, como por exemplo, entre saúde mental e saúde física. Entretanto, se a nomeação Psicologia da Saúde sugere a superação de dicotomias e um campo aparentemente monolítico, sua breve trajetória e as tensões desse campo concorrencial, que se situa na transdisciplinaridade, mostram que essa unicidade é múltipla. A Psicologia da Saúde — como campo de práticas, de saberes e de sentidos — apresenta dificuldades e contribuições, pois ao mesmo tempo em que questiona, mantém e engendra dicotomias problemáticas, enfrenta o desafio de uma área de atuação marcada pela heterogeneidade.

Inserindo-se nessa discussão, o livro ora resenhado, reúne textos instigantes sobre o tema saúde, na perspectiva de uma Psicologia Social crítica. Essa coletânea abrange reflexões que entrelaçam aspectos relevantes para a área, tais como a processualidade do conhecimento, os contextos da prática profissional, com as interações aí engendradas, e a saúde como campo de pesquisa da Psicologia Social. São textos de autoria de Mary Jane Spink, produzidos ao longo de mais de três décadas de leituras, reflexões teóricas e pesquisas com temas da saúde. Da vida profissional da autora, destaca-se sua vinculação, a partir da década de oitenta, a grupos de pesquisadores da Saúde Coletiva no Brasil, que são relevantes na institucionalização de uma Psicologia da Saúde de cunho coletivo. Um exemplo de inserção da autora nessa arena coletiva da saúde foi sua participação num projeto de pesquisa multidisciplinar e pioneiro no país — denominado Projeto Bela Vista — conduzido em São Paulo de 1994 a 1999, com o objetivo de determinar a incidência do HIV entre homens que fazem sexo com homens, que foi desenvolvido numa parceria entre a UNAIDS e o Ministério da Saúde brasileiro, como “estudos de factibilidade para possíveis testes de vacina anti-HIV/Aids” (p.233). Atualmente, Mary Jane é Professora Titular e Coordenadora do Programa de Estudos Pós-graduados em Psicologia Social, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP).

A compilação de textos escritos em diferentes períodos evidencia uma trajetória singular, com contribuições expressivas, e mostra que o processo de produção de conhecimentos da autora é marcado por rupturas teóricas, decorrentes de suas pesquisas. Os três marcos teóricos mais importantes e os contextos de suas rupturas são abordados no livro. O primeiro desses marcos é a cognição social utilizada ao longo do doutorado nos anos setenta, no London School of Economics and Political Science, London University. A segunda abordagem é a teoria das representações sociais que marca suas produções, já trabalhando no Brasil, na década de oitenta e começo da década de noventa. Finalmente, a terceira abordagem alinha-se à Psicologia Social discursiva, apresentando caminho próprio: postula que as práticas discursivas e os sentidos são produções dialógicas. Esse movimento teórico está expresso no nome do núcleo de pesquisa que Mary Jane coordena atualmente: Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Práticas Discursivas e Produção de Sentidos, na PUC-SP.

O livro Psicologia Social e Saúde: práticas, saberes e sentidos é formado por uma seleção de textos publicados, mas fora de circulação, e ensaios apresentados em eventos da área. Tendo em vista o objetivo principal da coletânea de fortalecer a Psicologia Social da Saúde, os dezessete capítulos foram organizados em quatro eixos temáticos, não obedecendo à ordem cronológica de produção dos textos.

A primeira parte, formada por quatro textos escritos na década de noventa, tem como eixo a discussão sobre a construção de saberes para uma Psicologia Social da Saúde. Discute posições teóricas distintas, mas articula “ingredientes” necessários à composição de saberes que sustentem a construção de uma Psicologia da Saúde pautada por princípios da saúde coletiva. Merece destacar as dificuldades apontadas para a inserção do psicólogo nos serviços de saúde, em parte, associadas a três aspectos: ao predomínio do modelo psicodinâmico na formação do psicólogo; à hegemonia da abordagem a-histórica e à hegemonia do modelo médico nas investigações e intervenções. Insere-se aqui a discussão sobre as dificuldades para dissolver o dualismo cartesiano mente-corpo que embaso a Medicina moderna e a maioria das abordagens da Psicologia clínica. Evitando reducionismos sociologizantes e psicologizantes, aponta dimensões que permitam superar enfoques intra-individuais e adotar perspectiva mais ampla e dinâmica para entender a saúde e a doença como processo histórico e multideterminado.

Um outro aspecto abordado são as contradições entre inderdisciplinaridade (ideal de síntese) e transdisciplinaridade (anel do conhecimento), em que a autora questiona as fronteiras disciplinares e as implicações dessa fragmentação para a produção do conhecimento. Problematiza a co-existência de duas posições aparentemente excludentes — que a Psicologia da Saúde tem contornos claros e delimitados e que a Psicologia da Saúde é um pântano de enfoques teóricos, com mais areia movediça do que terra firme — e apresenta alguns movimentos de superação. Discute a criação de pontes para diminuir o fosso entre uma Psicologia Social da Saúde e uma Psicologia da Saúde Clínica — hoje representadas pelos profissionais que atuam na atenção primária e pelos que atuam na terciária, os psicólogos hospitalares.

A segunda parte do livro, composta por cinco capítulos escritos nas décadas de oitenta e noventa, retoma as considerações sobre a Psicologia da Saúde, mas o foco da reflexão está na atuação dos psicólogos. Começa discutindo a regulamentação do exercício da profissão de psicólogo no Brasil; em seguida, com o trabalho do psicólogo na comunidade, problematiza essa prática em diferentes segmentos de atenção à saúde, buscando entender dilemas identitários de profissionais que se aventuraram nesse campo.

Segue problematizando a formação para atuar em instituições de saúde, situando a complexidade desse trabalho e a necessidade de análises institucionais mais sofisticadas. Na seqüência, ao discutir a construção social do paciente internado, avança na reflexão sobre essa complexidade, considerando a triangulação entre instituição hospitalar, expectativas sociais relacionadas à instituição e necessidades individuais dos pacientes. A autora encerra a segunda parte discutindo a ressignificação da prática do psicólogo nas chamadas instituições de “saúde mental”. Retoma os primórdios da moderna psicologia, esboçada no final do século dezenove, e reafirma que suas raízes individualizantes dificultam a adoção de uma perspectiva teórica mais social.

Na terceira parte do livro, que inclui quatro capítulos, o foco está nas relações entre usuários e profissionais da saúde. A particularidade é que Mary Jane, mostrando como as práticas legitimam sentidos, discute a presença da história no tempo curto da interação entre usuários e profissionais da saúde. O elo teórico desses capítulos está na noção de contexto que pressupõe a articulação de uma dimensão temporal tríplice: o tempo longo, o vivido e o tempo do aqui-e-agora. Resumidamente, o tempo longo marca os conteúdos produzidos pela humanidade e compõem o imaginário social; o tempo vivido é o tempo das linguagens sociais adquiridas nos processos de socialização; já o tempo do aqui-e-agora marca as relações face-a-face e as trocas de práticas discursivas em geral. A compreensão de que diferentes dimensões temporais se presentificam nas inter-relações do aqui-e-agora, foi central para que a autora elaborasse a abordagem teórica e metodológica de trabalho com práticas discursivas, culminando no livro Práticas discursivas e produção de sentidos no cotidiano, publicado em 1999.

Os textos nessa terceira parte foram organizados em duas vertentes: uma traz a perspectiva do tempo longo da história das práticas médicas e, considerando relações de gênero e de classe, problematiza suas implicações nas relações entre profissionais e pacientes. Nessa discussão os textos versam sobre As origens históricas da obstetrícia moderna (a passagem do parto das parteiras para os obstetras) e sobre A medicina e o poder de legitimação das construções sociais de igualdade e diferença (focando a construção social de diferença entre os sexos). A outra vertente privilegia as inter-relações em duas situações: 1) entre profissionais da saúde e usuários, argumentando que essas relações são melhores compreendidas quando posicionadas como “ordens negociadas”; 2) entre pesquisadores e voluntários, no contexto de ensaios clínicos de novos medicamentos, ressaltando as dimensões contextuais envolvidas.

Na quarta e última parte do livro, formada por quatro capítulos, a autora discute a saúde como campo de pesquisa da Psicologia Social. Para tanto, articula pesquisas das três décadas de sua inserção na área da saúde. O eixo organizador desses trabalhos é a busca pela compreensão dos processos de conhecimento e da produção de sentidos no cotidiano, pautada pela postura construcionista em pesquisa, que antecede os referenciais teóricos utilizados. Essas pesquisas, que versam sobre gravidez e parto, hipertensão arterial essencial, câncer e Aids, ilustram processos de saúde e de doença. E, segundo a autora, foram selecionadas por serem chave nas rupturas e reorientações teóricas e metodológicas que levaram da “abordagem do conhecimento como cognição social à teoria das representações sociais e destas às perspectivas dialógicas de trabalho com práticas discursivas” (p. 227).

Nessa perspectiva, o primeiro capítulo dessa última parte, Crenças sobre os desejos na gravidez e busca de informação: a produção de sentidos na perspectiva das disposições adquiridas nos processos de socialização, versa sobre a busca de informação por parte de mulheres primigestas, embasando-se no cognitivismo. O segundo, Permanência e diversidade nas representações sociais da hipertensão essencial arterial: entendendo a produção de sentidos numa perspectiva temporal, conforme o título, busca apoio na teoria das representações sociais. O terceiro, A onipresença do câncer na vida das mulheres: entendendo os sentidos no fluxo das associações de idéias, ilustra o trabalho com práticas discursivas e produção de sentidos. Finalmente, o último capítulo, Ao sabor dos riscos, traz uma reflexão sobre dialogia e co-construção de sentidos.

Sem dúvida, além fortalecer o campo, essa coletânea incita ao questionamento do papel da Psicologia Social da Saúde. A autora pontua o compromisso da disciplina com os direitos sociais, pensados na ótica coletiva, o que pressupõe um exercício profissional voltado à promoção e prevenção de saúde em diferentes esferas, tais como em serviços primários de atenção à saúde e nas comunidades sem, contudo, eximir-se de atuar na esfera das políticas públicas e programas sociais. Trata-se, portanto, de uma proposta de trabalho que transita dos micro-processos de produção de sentidos às questões institucionais e políticas. Embora partam da perspectiva da Psicologia Social, no contexto brasileiro, esses estudos ultrapassam as fronteiras geográficas e dizem respeito aos pesquisadores das ciências humanas e biomédicas e aos profissionais da área da saúde comprometidos com a saúde coletiva.

Como podemos ver, a leitura desse livro implica em navegar por uma diversidade de temas sobre saúde e nos faz dialogar com reflexões teóricas densas. Essa leitura, entretanto, é prazerosa, provocante e viva, uma vez que a autora introduz cada parte temática do livro, contando uma história que nos reporta ao período de produção do texto, ao mesmo tempo em que nos aproxima de suas reflexões atuais. Ou seja, essas histórias funcionam como uma visita aos textos, monitorada por Mary Jane, que afirma tratar “a história como memória” e “a memória como história” (p.9).

 

La Psicología de la Salud ha contribuido ampliamente para el área de la salud en general, sumándose al conjunto de saberes e formas de hacer, producidos por diferentes disciplinas que actúan en esa área. A pesar que la denominación Psicología de la Salud sugiere la superación de dicotomías (como entre salud mental y física) y la formación de un campo aparentemente monolítico, su breve trayectoria histórica y las tensiones en ese competido campo, situado en la transdiciplinaridad, nos muestran que esa unidad es múltiple. La Psicología de la Salud — como campo de prácticas, de saberes y de sentidos — presenta contribuciones y dificultades, pues al mismo tiempo que cuestiona, mantiene y engendra dicotomías problemáticas, enfrenta también la desafiante riqueza de un área de actuación marcada por la heterogeneidad.

Este libro nos presenta un compendio provocador sobre el tema de la salud, a partir de una perspectiva de la Psicología Social crítica. Los trabajos abarcan un espectro de reflexiones que entrelazan aspectos de relevancia para el área, tales como: la procesualidad del conocimiento, los contextos de la práctica social, así como, la salud entendida como un campo de investigación de la Psicología Social. Se trata de artículos de la autoría de Mary Jane Spink, producidos a lo largo de más de tres décadas de lecturas, reflexiones teóricas e investigaciones dedicadas al tema de la salud. De la vida profesional de la autora, se destaca su vinculación, a partir de la década de 1980, con grupos de investigadores y gestores del área de la Salud Colectiva brasileña, relevantes para el proceso de institucionalización de una Psicología de la Salud, de carácter colectivo. Un ejemplo de inserción en esta arena de acción colectiva, ha sido su participación en un amplio proyecto de investigación interdisciplinario y pionero en el país, denominado Proyecto Bela Vista, que consistió en un estudio de la incidencia de infección por el HIV entre hombres que mantenían relaciones sexuales con otros hombres. El proyecto, que fue desarrollado con el apoyo de la UNAIDS y el Ministerio de Salud brasileño, “como estudios de factibilidad para posibles pruebas de la vacuna contra el HIV/Sida” (p.233), fue ejecutado en San Pablo entre los años de 1994 y 1999. Mary Jane, es Profesora Titular y actualmente coordina el Programa de Estudios de Postgrado en Psicología Social, de la Pontifica Universidad Católica de San Pablo (PUC/SP).

La lectura de los diferentes artículos, producidos en diferentes épocas, muestra el proceso de producción de conocimiento de la autora, el cual está marcado por rupturas teóricas, producto del desarrollo de sus investigaciones. En el libro son abordados tres marcos teóricos importantes y los contextos de sus rupturas. El primero de ellos es el de la cognición social el cual fue utilizado durante su curso de doctorado, en la década de 1970, en la London School of Economics and Political Science, de la London University. El segundo, corresponde a la teoría de representaciones sociales, que marca varias de sus producciones trabajando ya en Brasil, durante la década de 1980 y comienzos de 1990. El tercero tiene como base a la Psicología Social Discursiva, a partir del cual construye su propia propuesta, considerando a las prácticas discursivas y los sentidos como producciones dialógicas. Este último movimiento teórico se expresa en el nombre del núcleo de investigaciones que Mary Jane coordina actualmente: Núcleo de Estudios e Investigaciones sobre Prácticas Discursivas y Producción de Sentidos.

El libro está formado por una selección de trabajos publicados, actualmente fuera de circulación, así como por ensayos presentados en eventos del área. Los diecisiete capítulos del libro fueron organizados en cuatro ejes temáticos sin orden cronológico específico, en cuanto a las épocas en que fueron escritos.

La primera parte, con cuatro capítulos escritos en la década de 1990, tiene como eje la discusión sobre la construcción de saberes para una Psicología Social de la Salud. Se discuten diferentes posiciones teóricas, enfatizando y articulando los ‘ingredientes’ necesarios que sustentan la construcción de una Psicología de la Salud, orientada por los principios de la Salud Colectiva. Vale la pena destacar las dificultades mencionadas para la inserción del psicólogo en los servicios de salud, las cuales estarían asociados (en parte) a tres aspectos: el predominio del modelo psicodinámico en la formación del psicólogo, la hegemonía del abordaje ahistórico y la hegemonía del modelo médico en la definición de los objetos de investigación e intervención. Se incluye una discusión sobre las dificultades enfrentadas para la disolución del dualismo cartesiano mente-cuerpo, que ha sustentado a la Medicina moderna y a la mayoría de los abordajes de la Psicología Clínica. Evitando los reduccionismos sociologizantes y psicologizantes, plantea las dimensiones cruciales que nos permitan superar los enfoques predominantemente intraindividuales, adoptando una perspectiva más amplia y dinámica hacia la comprensión de la salud y la enfermedad como procesos históricos y multideterminados.

Son discutidas las contradicciones entre interdisciplinaridad (ideal de síntesis) y transdisciplinaridad (anillo de conocimiento). La autora cuestiona las fronteras disciplinares y las implicaciones que esa fragmentación tiene para la producción del conocimiento. Son presentados algunos movimientos de superación de esas dificultades para la creación de puentes que disminuyan el foso existente entre la Psicología Social de la Salud y la Psicología de la Salud Clínica.

La segunda parte del libro, compuesta de cinco capítulos escritos entre las décadas de 1980-1990, retoma las consideraciones sobre la Psicología de la Salud, con énfasis en la actuación de los psicólogos en esa área. Comienza tratando la legislación brasileña del ejercicio profesional del psicólogo, para seguir luego con el trabajo del psicólogo en la comunidad, problematizando la práctica profesional en diferentes segmentos de la atención de la salud y buscando entender los dilemas de identidad de los profesionales que actúan en este campo.

Continúa la tónica de problematización al abordar la formación para actuar en instituciones de salud, situando la complejidad de este trabajo y la necesidad de análisis más sofisticados sobre la dinámica institucional. Siguiendo la secuencia, en el trabajo sobre la construcción social del paciente internado, la reflexión avanza hacia la complejidad del trabajo institucional, considerando la triangulación entre la institución hospitalaria, las expectativas sociales con relación a ella y las necesidades individuales de los pacientes. La autora cierra la segunda parte con la resignificación de la práctica del psicólogo en las llamadas instituciones de ‘salud mental’. Parte de los antecedentes de la práctica de la psicología moderna, esbozada a finales del siglo XIX, para reafirmar que las raíces individualizantes de la Psicología dificultan la adopción de una perspectiva teórica más social.

En la tercera parte del libro, compuesta de cuatro capítulos, el foco está en las relaciones entre los usuarios y los profesionales de la salud. La relevancia de esta parte reside en que Mary Jane discute la presencia de la historia con énfasis en el tiempo corto de la interacción entre los usuarios y los profesionales de la salud, mostrando cómo las prácticas legitiman los sentidos. El eslabón teórico que une los capítulos es la comprensión de la noción de contexto, que presupone la articulación de una dimensión temporal triple: el tiempo largo (de los contenidos producidos en la historia de la humanidad y que componen el imaginario social), el tiempo vivido (de los lenguajes sociales adquiridos en el proceso de socialización) y el tiempo del aquí y ahora (de las relaciones cara a cara y los intercambios discursivos en general. La comprensión de que diferentes dimensiones temporales se hacen presentes en las interrelaciones del aquí y ahora, ha sido central en la trayectoria que ha permitido a la autora elaborar su abordaje teórico-metodológico con las prácticas discursivas, el cual ha culminado con la publicación del libro Práticas discursivas e produção de sentidos no cotidiano, en 1999.

Los trabajos de la tercera parte han sido organizados en dos vertientes. La primera a partir de la historia de las prácticas médicas (en la perspectiva del tiempo largo), considerando las relaciones de género y de clase y las implicaciones que estas dimensiones tienen en las relaciones que son establecidas entre los profesionales y los pacientes. Los trabajos versan sobre Los orígenes históricos de la obstetricia moderna (el pasaje del parto con parteras para el parto con obstetras), y sobre La Medicina y su poder de legitimación de las construcciones sociales de igualdad y diferencia (que focaliza en la construcción social de la diferencia entre los sexos). La segunda, privilegia las interrelaciones en dos situaciones específicas: 1) entre los profesionales de la salud y los usuarios de los servicios de salud, (entendidas más adecuadamente como “órdenes negociadas”), y 2) la relación entre investigadores y voluntarios, en el contexto de las pruebas clínicas realizadas para la elaboración de nuevos medicamentos, con énfasis en las dimensiones contextuales envueltas.

La cuarta parte del libro, formada por cuatro capítulos, discute el tema de la salud como campo de investigación de la Psicología Social. Se articulan resultados de investigaciones que ejemplifican las tres décadas de inserción profesional de la autora en el área de la salud. El eje organizador es la comprensión de, los procesos de conocimiento y de producción de sentidos en lo cotidiano, orientados por una postura de investigación construccionista. La investigaciones, que versan sobre embarazo y parto, hipertensión arterial esencia, cáncer y Sida, ilustran los procesos de salud y enfermedad que, según la autora, fueron seleccionados por evidenciar las rupturas y reorientaciones teórico-metodológicas que la llevaron, de “un abordaje del conocimiento como cognición, a la teoría de las representaciones sociales y de ésta, a las perspectivas dialógicas de trabajo con prácticas discursivas” (p. 227).

El primer capítulo de la última parte, Las creencias sobre los antojos en el embarazo y la búsqueda de información: la producción de sentidos según la perspectiva de las disposiciones adquiridas en los procesos de socialización, fundamentado en el cognitivismo, se basa en la investigación que versa sobre la búsqueda de información por parte de las mujeres primigestas. El trabajo, La permanencia y la diversidad en la las representaciones sociales de la hipertensión arterial esencial: entendiendo la producción de sentidos en una perspectiva temporal, se apoyo en la teoría de representaciones sociales. La tercera investigación, La omnipresencia del cáncer en la vida de las mujeres: entendiendo los sentidos del flujo de asociación de ideas, sirve como ilustración del trabajo realizado con las prácticas discursivas y la producción de sentidos. El último capítulo, Al sabor de los riesgos, nos trae una reflexión sobre la dialogía y la construcción de sentidos.

No cabe duda que este libro fortalece el campo de la Psicología de la Salud al destacar el compromiso de la disciplina con los derechos sociales, a partir de una óptica colectiva, lo que presupone un ejercicio profesional dirigido a la promoción y la prevención de la salud en varias esferas, tales como, en los servicios de atención primaria de salud y dentro de las comunidades, incluyendo la actuación en la esfera de las políticas públicas y los programas sociales. Es una propuesta que transita entre los micros procesos de producción de sentidos y las cuestiones institucionales y políticas. Si bien los trabajos parten de una perspectiva de la Psicología Social brasileña, ellos traspasan las fronteras geográficas para conversar con investigadores y profesionales del área de la salud en general, comprometidos con la salud colectiva.

Leer este libro implica navegar por una diversidad de temas sobre la salud y nos hace dialogar con reflexiones teóricas densas de forma a la vez agradable y provocativa, ya que la autora introduce cada parte contando una historia que nos remite a diferentes períodos de creación de los trabajos, trayéndolos para la reflexión actual. Las historias son una visita guiada, dirigida por Mary Jane que afirma tratar a “la historia como memoria” y a “la memoria como historia” (p. 9).

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