Na pesquisa científica, diferentes posicionamentos ontológicos e epistemológicos guiam a escolha de abordagens, métodos e interpretações. Nas ciências sociais, essa pluralidade de caminhos é especialmente marcante, oferecendo a quem pesquisa uma diversidade de lentes para investigar fenômenos. Diante dessas abordagens, a possibilidade de discutir os bastidores da pesquisa (escolhas, desafios e negociações) está diretamente relacionada ao posicionamento epistemológico adotado que orienta a produção científica.
Temos, nos bastidores, uma parte integrante e reveladora da produção do conhecimento no construcionismo (Gergen e Gergen, 2010). Para discutir os bastidores, utilizamos a metáfora da cozinha da pesquisa, como um espaço de criação, experimentação e improviso, onde o rigor técnico encontra a subjetividade das/os criadoras/es. Como na preparação de um prato (entenda-se aqui prato como a comida em si, não o objeto), o processo de pesquisa científica envolve a seleção cuidadosa de ingredientes (informações, métodos e teorias) e o ajuste contínuo para alcançar uma harmonia metodológica, equilibrando as demandas do rigor acadêmico com as realidades do campo-tema. Cada etapa é atravessada por decisões, negociações e imprevistos que constroem tanto o processo quanto o conhecimento.
A pesquisa científica é mais do que um empreendimento técnico; é uma prática relacional e situada socialmente (Spink, 2010). Essa abordagem desafia a visão tradicional de neutralidade e objetividade na ciência, reconhecendo que o conhecimento é construído em interação com contextos históricos, culturais e discursivos (Nogueira, 2001). De tal forma, a cozinha da pesquisa faz parte do campo-tema (Spink, 2003), no qual narrativas, sentidos e práticas são constantemente negociados, cabendo à/ao pesquisadora/r configurar as dinâmicas que constroem o processo investigativo.
Buscamos, com este artigo, discutir a metáfora da cozinha da pesquisa, alinhada ao posicionamento ontológico e epistemológico fundamentado no construcionismo social, por meio de um relato de experiência baseado em uma pesquisa de mestrado. Ao tornar visíveis os bastidores dessa investigação científica, convidamos a uma discussão sobre a importância da reflexividade, transparência e reconhecimento das interações contextuais que permeiam o fazer científico e sua processualidade.
Do ponto de vista teórico, buscamos contribuir para aprofundar o debate sobre o construcionismo social como uma abordagem crítica e relacional à pesquisa. Do ponto de vista prático, compartilhamos experiências que podem enriquecer o repertório de outras/os pesquisadoras/es em suas próprias cozinhas. Afinal, ao abrirmos a nossa caixa-preta (Latour, 2012), o que acontece por trás dos resultados finalizados, humanizamos o processo de pesquisa e ampliamos as possibilidades de diálogo, aprendizado e transformação na ciência.
Em uma cozinha, pratos são preparados a partir de ingredientes variados, técnicas específicas e improvisos diante de imprevistos, o processo de pesquisa também envolve práticas que vão além do que é formalmente apresentado nos resultados. Na cozinha da pesquisa, os ingredientes são as informações produzidas, as teorias escolhidas e os métodos aplicados; os utensílios incluem as ferramentas analíticas e tecnológicas; e a/o cozinheira/o (a/o pesquisadora/r) é quem dá forma e sabor ao produto, utilizando sua criatividade, experiência e julgamento.
A metáfora da cozinha da pesquisa que adotamos neste estudo inspira-se na cozinha doméstica. Essa escolha reforça o caráter artesanal e situado do trabalho científico, assim como o ato de cozinhar em casa. Ao mesmo tempo, reconhecemos que não há uma única cozinha, mas múltiplas, refletindo a diversidade de modos de produzir alimentos e conhecimento, evidenciando que a pesquisa, assim como a cozinha, é um fazer plural.
Embora o texto recorra à figura da/do chef de cozinha para ilustrar a agência criativa da/do pesquisadora/r, essa imagem não remete à cozinha profissional, mas a alguém que cozinha com sensibilidade e autoria em um espaço cotidiano. Trata-se de uma metáfora ampliada da cozinha doméstica, que expressa a forma como a pesquisa é conduzida no construcionismo social: com atenção, adaptação e valorização das relações que se constituem.
Recorrer à metáfora na pesquisa qualitativa não é novo. Alguns estudos mostram que as metáforas funcionam como instrumentos analíticos e reflexivos, aproximando a/o pesquisadora/r, a própria experiência e das/os participantes (Dexter e LaMagdeleine, 2002; Flotman e Barnard, 2022). De modo semelhante, a metáfora da cozinha também tem sido utilizada em diferentes áreas do conhecimento como dispositivo para refletir sobre os bastidores da criação e da prática científica (Cruz et al., 2016; Gama e Fleischer, 2016; Kohl e McCutcheon, 2015; Singh et al., 2023). Contudo, a proposta apresentada neste artigo aprofunda esse recurso ao situá-lo na pesquisa construcionista, concebendo a cozinha da pesquisa como espaço de coautoria, reflexividade e produção coletiva do conhecimento.
Assim, a metáfora proposta contribui para ampliar o vocabulário construcionista sobre o fazer científico, desestabilizando fronteiras entre ciência e vida cotidiana. Nesse sentido, dialogamos com Peter Spink (2009), quando discute que não há diferença entre a/o cientista que busca resolver uma questão e a/o chef de cozinha que procura acertar uma receita, já que ambas/os estão empenhadas/os em fazer o melhor, aprimorar suas práticas e compartilhar o caminho percorrido. Com esse entendimento, nossa proposta busca oferecer uma tradução possível (não única) para compreender o fazer científico.
Diferentemente do rigor cartesiano que permeia as narrativas tradicionais sobre pesquisa, a metáfora permite apreender a flexibilidade e a subjetividade inerentes ao fazer científico. Como uma/um chef adapta receitas ao paladar de suas/seus convidadas/os e condições da cozinha, a/o pesquisadora/r também ajusta sua abordagem diante do percurso. Informações, teorias e métodos são selecionados e combinados de acordo com os objetivos do estudo, bem como as circunstâncias e restrições impostas pelo contexto.
A pesquisa, assim como na culinária, não se limita a seguir uma receita. Frequentemente, a/o pesquisadora/r precisa improvisar, adaptar ou substituir elementos conforme o campo oferece ou restringe acesso a determinados recursos. Tal qual na cozinha, onde a farinha pode ter uma textura diferente, o leite condensado pode variar na consistência e os ovos podem apresentar pesos desiguais, a pesquisa também é influenciada por temporalidades e particularidades do contexto.
Deste modo, a/o pesquisadora/r é uma/um agente ativa/o, cuja experiência, valores e intuições afetam os rumos da investigação. No construcionismo social, essa perspectiva é central: a/o pesquisadora/r não é uma/um observadora/r neutra/o, mas uma/um participante envolvida/o, que negocia continuamente com o campo, com as/os participantes da pesquisa e consigo mesma/o (Pereira et al., 2024).
A etapa final de uma pesquisa (artigo, dissertação, etc.) é muitas vezes apresentada como um prato pronto, sem vestígios das improvisações ou dos dilemas enfrentados na cozinha. Contudo, o construcionismo social nos convida a questionar essa linearidade e a valorizar tanto o processo quanto o resultado. O conhecimento é visto como uma produção coletiva, co-construída, fruto das interações entre quem pesquisa, as/os participantes e o contexto (Pedrosa e Spink, 2011).
Assim como o prato que reflete as habilidades da/o chef, os ingredientes disponíveis e as tradições culinárias, a pesquisa também reflete condições sociais e históricas. Ademais, entendemos a cozinha da pesquisa como um espaço de convivência, onde diferentes pessoas se encontram, trocam saberes e compartilham responsabilidades no preparo do conhecimento. Assim, a metáfora se amplia para incluir as sociabilidades que atravessam o fazer científico, reconhecendo que o conhecimento é resultado de interações que se constroem no diálogo, na escuta e partilha. Quem prova o prato (comunidade científica, participantes ou sociedade em geral) também participa desse ciclo, realimentando a cozinha com novos sabores, críticas e inspirações para as próximas receitas.
Tradicionalmente, a cozinha é um espaço restrito, no entanto, quando trazida para a pesquisa, essa separação se torna política e epistemológica: quem tem acesso à cozinha do conhecimento? Quem participa do preparo? Quem consome o resultado? No construcionismo social, essas fronteiras são constantemente tensionadas, pois o conhecimento é uma produção coletiva e situada.
A pesquisa científica, especialmente nas ciências sociais, é um campo em constante movimento, construído pelas perguntas que buscamos responder e pelos caminhos escolhidos para investigá-las. Sob a superfície de artigos refinados e metodologias bem delineadas, esconde-se um universo de escolhas, dilemas e negociações que permanecem invisíveis. Para apresentar esses bastidores, é necessário adotar uma postura que desafia a ideia de uma ciência neutra e objetiva, entendendo o conhecimento como uma construção social.
Essa premissa encontra alicerce no construcionismo social, uma abordagem epistemológica que questiona os pressupostos tradicionais sobre a produção do saber (Ibáñez, 2001; Spink, 2013). Diferentemente de perspectivas positivistas, que tratam o conhecimento como um reflexo direto da realidade, o construcionismo social propõe que aquilo que entendemos como real é constantemente (re)construído por meio das interações humanas e não humanas, das narrativas culturais e das práticas discursivas (Latour, 2012; Rasera et al., 2016). Assim, o conhecimento não é algo que simplesmente descobrimos, mas algo que produzimos, em meio a contextos históricos, culturais e sociais específicos (Gergen e Gergen, 2010; Spink e Spink, 2014).
No fazer científico, a pesquisa muitas vezes é apresentada como um processo linear e previsível, guiado por metodologias rigorosas e resultados objetivos. Entretanto, as realidades desse fazer constituem espaço de criação, onde ingredientes são selecionados, combinados e adaptados, sempre respeitando princípios éticos e rigor acadêmico que fundamentam o processo. No construcionismo, questiona-se o distanciamento entre quem pesquisa e o objeto pesquisado. Ao contrário de uma postura observacional que pleiteia a neutralidade, aqui a/o pesquisadora/r desempenha um papel ativo.
No movimento construcionista, o rigor científico possui papel central e é compreendido como a coerência interna que estrutura na pesquisa. Essa coerência se manifesta na conectividade entre os elementos fundamentais do estudo: problema-pergunta, objetivos, métodos, referencial teórico e compromisso ético (Vecchia et al., 2024; Rasera e Silva, 2024). Assim, como na composição de um prato em uma cozinha, em que cada ingrediente e técnica devem estar alinhados para compor o sabor, o rigor exige que cada escolha metodológica e interpretativa esteja fundamentada e seja coerente com o propósito do estudo.
Diferentemente dos paradigmas positivistas, que fundamentam o rigor em critérios como replicabilidade e generalização, a perspectiva construcionista redefiniu esse conceito, centrando-o na reflexividade, na explicitação do processo interpretativo e na relevância social do estudo (Pereira et al., 2024). Nesse contexto, o rigor não se limita a aplicação prescritiva de métodos e/ou etapas predefinidas, mas à capacidade da/o pesquisadora/r justificar as escolhas de forma transparente e fundamentada. A validade, então, passa a ser entendida pelo processo de diálogo que explicita os caminhos percorridos, permitindo a compreensão e interlocução da comunidade científica e não científica (Spink et al., 2014).
No entanto, é importante destacar que o rigor no construcionismo não implica que tudo é permitido. Assim como na cozinha, não se trata de dispor de ingredientes aleatórios em uma panela e esperar que o resultado seja uma refeição saborosa; o processo de pesquisa exige uma composição cuidadosa, reflexiva e fundamentada. Onde cada escolha metodológica, teórica e interpretativa esteja alinhada a proposta que sustenta a investigação. É necessário se implicar no processo de produção de conhecimento, garantindo que seja conduzido com responsabilidade e respeito às pessoas, aos contextos e às questões sociais investigadas.
A reflexividade desempenha um papel essencial nesse entendimento de rigor. Para o construcionismo, a subjetividade da/o pesquisadora/r não é vista como ameaça ao rigor, mas como um recurso fundamental do processo investigativo (Spink, 2013). Reconhecer e explicitar como valores, contextos e influências da/o pesquisadora/r atravessam as interpretações, enriquece a análise e confere transparência ao processo de produção do conhecimento.
Assim como na cozinha, onde o cuidado com a higiene e a organização são essenciais para garantir qualidade e segurança do alimento, o rigor na pesquisa construcionista envolve compromisso ético e metodológico que permeia as etapas do estudo. Esse compromisso se reflete na documentação detalhada das decisões tomadas, no engajamento crítico com o campo-tema e na adaptação responsável ao contexto investigado. As mudanças e ajustes, longe de serem aleatórias, são orientadas pelas afetações que o campo-tema provoca, permitindo que a pesquisa revisite métodos e caminhos quando necessário.
Ademais, o rigor construcionista não abdica da objetividade, mas a ressignifica como visibilidade. Objetividade, assim, é concebida como a capacidade de tornar explícitas as interpretações e análises realizadas, garantindo que o processo investigativo seja acessível e passível de diálogo (Spink et al., 2014). Esse rigor, ao abandonar os parâmetros de verdade como correspondência à realidade, privilegia a polissemia, a reflexividade e o compromisso ético, reforçando a ideia de que a pesquisa é uma prática social atravessada por questões de poder (Spink, 2013).
No construcionismo social, a pesquisa é um processo de produção de informações e conhecimento que exige questionamento constante sobre as condições em que essas informações são geradas. Para Mary Jane Spink (2010), a reflexividade é uma espiral da interpretação e efeitos da presença de quem pesquisa nos resultados, transformando a subjetividade em um recurso a mais. Em outras palavras, quem está na cozinha precisa reconhecer as escolhas, os impactos e as limitações no processo de preparo do prato.
A reflexividade é o tempero que confere autenticidade e ética à pesquisa qualitativa. Ela permite à/ao pesquisadora/r expor contradições, desafios e ajustes realizados ao longo do caminho, valorizando as condições de produção do conhecimento (Spink et al., 2014). Assim, o que antes era relegado ao invisível (conversas informais, tensões éticas, imprevistos) passa a ser reconhecido como parte essencial da investigação.
A reflexividade amplia a discussão ética ao transcender o mero cumprimento dos parâmetros normativos e documentais, como o termo de consentimento ou as diretrizes institucionais (Spink et al., 2014). Embora essenciais, esses elementos representam uma ética prescritiva. Por outro lado, uma ética relativa e dialógica, fundamentada no construcionismo, reconhece que os contextos, relações e sentidos construídos são únicos e dinâmicos, demandando da/o pesquisadora/r uma postura sensível, adaptativa e comprometida com a realidade vivida pelas/os participantes (Spink, 2010). Nesse sentido, o compromisso ético, além do que consta em documentos, envolve práticas de escuta ativa, negociação de sentidos e respeito às singularidades das experiências compartilhadas. Cabe à/ao pesquisadora/r cultivar uma ética que se constrói no cotidiano da interação, respondendo de forma responsável às demandas e tensões emergentes no processo investigativo, valorizando as vozes e subjetividades envolvidas na produção do conhecimento (Gomes e Jesus, 2020).
O construcionismo social é uma postura crítica perante o fazer científico (Santos e Souza, 2020), que nos convida a desfamiliarizar as verdades estabelecidas, perguntando como essas verdades foram construídas e a quem elas servem (Spink, 2010). Essa abordagem, além de desafiar hierarquias de poder na produção do saber, promove uma ciência que valoriza a pluralidade de vozes, experiências e interpretações (Gergen e Gergen, 2010). Essa visão se apresenta especialmente poderosa ao possibilitar a visibilização de contextos negligenciados e de pessoas marginalizadas, frequentemente excluídas das narrativas tradicionais. Ao permitir trazer à tona os bastidores da pesquisa, o construcionismo amplia o entendimento sobre como as práticas científicas são atravessadas por dinâmicas de poder, subjetividades, contexto histórico e sociais.
Dessa forma, a afetividade também é compreendida como parte constitutiva da reflexividade. Emoções e afetos que emergem na relação com o contexto e com as/os participantes não são ruídos a serem eliminados, mas elementos que potencializam o processo interpretativo (Celestino e Souza, 2020). Afetar-se e deixar-se afetar permitem reconhecer a implicação pessoal da/o pesquisadora/r e ampliar a compreensão sobre as dinâmicas humanas que atravessam o fenômeno estudado (Spink, 2007). Essa dimensão afetiva, em vez de comprometer o rigor, o aprofunda, pois torna visíveis posições, valores e relações que sustentam a produção do conhecimento.
Nesse processo, é importante repensar a forma como avaliamos o conhecimento produzido. Se na cozinha cada prato é resultado de tentativas, ajustes, intuições e trocas, a avaliação de uma pesquisa poderia ser vista como o momento de partilha. Quando o prato é colocado à mesa e passa a ser saboreado por outras pessoas. Assim, avaliar não se reduz a medir resultados ou conferir coerência técnica, mas implica degustar o percurso, reconhecer gestos, sensibilidades e cuidados envolvidos na preparação. Os sentidos que atravessam a cozinha (cheiro, gosto, toque, olhar) podem inspirar novos modos de olhar para a pesquisa: com atenção ao processo, afeto e criatividade. Uma boa pesquisa carrega o sabor do tempo e de quem a prepara, revelando cuidado na produção e a abertura ao diálogo de quem a acolhe.
Para ilustrar como a cozinha da pesquisa está presente nos desdobramentos de um estudo, apresentamos, como exemplo, a pesquisa de mestrado de Braz Isac Andrade Santos (2024), intitulada Articulações entre maternidade e trabalho na vida de mulheres vendedoras ambulantes no litoral suburbano de Salvador. É importante situar que esse estudo fez parte do projeto macro, coordenado pela professora Dra. Juliana Aparecida de Oliveira Camilo, Trabalhar no litoral: um retrato dos trabalhadores nas praias de Salvador, realizado como parte das atividades do Núcleo de Estudos em Trabalho e Esporte (NETE) da Universidade Federal da Bahia (UFBA), com aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa sob o Certificado de Apresentação de Apreciação Ética (CAAE) Nº 56893522.9.1001.5686. Na presente pesquisa, todas as participantes foram informadas sobre os objetivos do estudo e sobre a garantia de anonimato e confidencialidade. Os nomes mencionados ao longo do texto são fictícios, a fim de preservar a identidade das participantes.
Em meio à multiplicidade de receitas possíveis, focamos nas relações entre o trabalho informal e a maternidade. Assim, contando com uma abordagem qualitativa, o estudo teve como objetivo refletir sobre a relação entre a maternidade e o trabalho informal, destacando as nuances específicas vivenciadas por mulheres vendedoras ambulantes no litoral do subúrbio de Salvador. Embasado no movimento do Construcionismo Social, propôs-se um diálogo com a teoria atriz-rede (TAR) (Flores-Pons et al., 2015); a pesquisa investigou como relações sociais e elementos do cotidiano produzem sentidos e posicionamentos das participantes em suas práticas laborais. Essa abordagem interativa permitiu analisar conexões humanas e não humanas (Latour, 2012) no ambiente estudado, como as relações com clientes, outras/os trabalhadoras/es, produtos e espaço físico.
Ao longo do estudo, foram realizadas observações e conversas no cotidiano das participantes (Spink et al., 2014; Spink, 2007), priorizando as interações sociais e os contextos das praias periféricas de Salvador. As praias de Tubarão e São Tomé de Paripe foram escolhidas pela relevância para o trabalho ambulante local. Embora inicialmente estivesse previsto o uso de recursos para gravações de áudio/vídeo, devido ao ambiente ruidoso, não foi possível. Assim, os registros foram feitos em diários de campo, que permitiram registrar eventos, narrativas e reflexões do pesquisador. As informações foram analisadas com o auxílio do software Atlas.ti 23, que permitiu a codificação e a categorização das produções.
As interações ocorreram ao longo de 30 encontros, em diferentes dias e horários, com duração média aproximada de 2 horas. Com momentos de observação e entrelaçados às conversas com as trabalhadoras. Essas interações ocorreram de forma situada, acompanhando o ritmo do trabalho e o movimento das marés. O pesquisador caminhava junto às ambulantes, observando suas trajetórias pela areia enquanto ofereciam seus produtos, acompanhando as trocas, gestos e diálogos que ali se desenvolviam. As conversas surgiam espontaneamente durante as pausas para descanso, na organização das mercadorias ou nos momentos de menor fluxo de clientes.
A pesquisa foi realizada em uma região historicamente associada a processos de desigualdade urbana. Um território marcado por forte circulação de trabalhadoras/es locais, as/os quais têm na informalidade uma importante fonte de renda (Carvalho e Arantes, 2021). As mulheres que atuam como ambulantes, foco deste estudo, convivem com desafios cotidianos decorrentes da sobreposição entre o trabalho e o cuidado familiar. As observações evidenciaram que a presença de mulheres negras nesse espaço é expressiva, o que contribuiu para situar a discussão sobre maternidade e trabalho informal nas interseções entre raça e gênero.
É importante situar a posicionalidade do pesquisador em relação à pesquisa, considerando que já havia familiaridade prévia com as praias. Já que compartilhava certo pertencimento e reconhecimento do território. Essa proximidade, contudo, não eliminou as diferenças e as assimetrias que atravessaram as relações estabelecidas. A posição do pesquisador, um homem negro, teve implicações na forma como a pesquisa se configurou e nos caminhos que ela percorreu. A questão racial parece ter contribuído para que as abordagens ocorressem de forma tranquila, uma vez que a literatura aponta que relações de paridade racial podem favorecer interações mais fluidas e a emergência de determinados conteúdos na pesquisa (Maia, 2024; Schucman et al., 2012). Por outro lado, o gênero pode ter produzido fronteiras, pois ser um homem pesquisando experiências de mulheres impôs tensões específicas, conforme discutido no artigo de Braz I. A. Santos e Juliana A. O. Camilo (2025a), o que possivelmente influenciou o número de participantes no estudo.
O desenvolvimento da investigação foi marcado pela interação direta com as trabalhadoras nas praias. Iniciou-se com observações, que, gradualmente, evoluíram para interações mais aprofundadas com as participantes. Essas conversas permitiram compreender as dinâmicas que permeiam o trabalho e a maternidade no contexto, valorizando experiências e sentidos construídos pelas trabalhadoras em suas práticas diárias.
A pesquisa resulta de um movimento coletivo de produção, uma vez que dialogou continuamente com outras/os membras/membros do grupo, enriquecendo suas reflexões e contribuindo para a construção compartilhada do conhecimento. A trajetória desse relato de pesquisa teve início antes do primeiro semestre letivo do mestrado. O anteprojeto, sustentado durante a arguição do processo seletivo para ingresso no mestrado, abordava o trabalho de motoristas de aplicativos. Mas antes mesmo do início oficial das aulas, a orientadora organizou uma reunião com o objetivo de alinhar perspectivas e integrar os projetos individuais e coletivos do grupo de estudos.
Naquele momento, a orientadora apresentou o projeto que vinha desenvolvendo ao grupo. O projeto apresentava como objetivo mapear trabalhos e as pessoas que trabalhavam no litoral de Salvador, desvinculados de contratos formais, com finalidade de compreender sentidos do trabalho e as relações com o território. Diante desse cenário, foi requerido ao pesquisador, enquanto mestrando, que avaliasse seus interesses de pesquisa. Durante as orientações, uma atividade foi proposta pela orientadora: realizar observações em uma praia, como forma de aproximação ao campo-tema.
Essa experiência revelou-se um marco significativo. Durante a atividade de observação, foi possível testemunhar uma cena que se destacou: uma trabalhadora ambulante, que transitava pela areia da praia acompanhada de sua filha enquanto oferecia produtos às/aos banhistas. Essa cena levou à compreensão da necessidade de ampliar o olhar sobre as formas de trabalho e como se entrelaçam com o cotidiano das mulheres, revelando práticas de cuidado familiar e estratégias de sobrevivência em contextos de precariedade laboral. O que permitiu a reconfiguração do foco da pesquisa, despertando o interesse pelas interseções entre o trabalho informal e a maternidade.
O exercício de desfamiliarização das práticas sociais, ao adotar um olhar atento e sensível para as relações laborais e para as pessoas que atuam no litoral, consolidou nossa prática. Coletivamente, mergulhamos em um campo-tema atravessado pela precariedade, pelas invisibilidades históricas e pelas experiências cotidianas das trabalhadoras ambulantes. Sob essa nova ótica, a pesquisa de mestrado foi estruturada. Essa proposta exigiu rigor teórico e metodológico, que se realiza justamente por meio de uma postura sensível e reflexiva, que permitiu construir informações e interpretar as complexidades sociais e culturais presentes no contexto investigado.
O processo investigativo enfrentou desafios que evidenciaram as dinâmicas de poder e as barreiras culturais e sociais. Primeiramente, não havia uma/um trabalhadora/r que pudesse servir como ponte inicial para facilitar a construção de vínculos. Todo o relacionamento foi construído com as trabalhadoras nesses momentos. No primeiro dia das conversas, na praia de São Tomé de Paripe, encontramos Carmen (17 anos, mãe de um bebê de 3 meses) e Luciana (21 anos, mãe de duas crianças); houve a apresentação da pesquisa e do pesquisador e elas concordaram em conversar e compartilhar suas experiências. Contudo, ao serem convidadas a formalizar sua participação por meio da assinatura do termo de consentimento livre e esclarecido (TCLE), ambas se recusaram.
No segundo dia, a conversa foi estabelecida com Márcia (44 anos, mãe de sete filhas/os e avó de três netas/os; seu filho mais novo com 15 anos), que se tornou uma participante central para o desenvolvimento da pesquisa. Márcia compartilhou sua trajetória como trabalhadora ambulante e mãe e apresentou Valéria (41 anos, mãe de cinco filhas/os; seu filho mais novo com 4 anos), outra trabalhadora importante no estudo. Apesar de outras mulheres terem sido abordadas e apresentadas, muitas não atendiam aos critérios de inclusão da pesquisa ou se recusavam a participar.
Na praia de Tubarão, a pesquisa enfrentou desafios adicionais. Embora seja um local populoso, durante a pesquisa houve dias de baixa presença de banhistas e trabalhadoras/es, em função da sazonalidade e das características físicas locais, como o movimento das marés, descrito mais detalhadamente por Santos e Camilo (2024a). Essas condições afetaram as interações e o ritmo do trabalho. Apenas no quinto dia foi possível estabelecer uma conversa com Joana (33 anos, mãe de duas crianças), que, apesar da abertura inicial, preferiu não formalizar sua participação por meio da assinatura do TCLE.
Entendemos que o compartilhamento de uma marca racial gerou gestos de reconhecimento e abertura, especialmente com algumas interlocutoras, como Márcia, cuja receptividade e disponibilidade favoreceram o diálogo e a construção de confiança. Contudo, essa aproximação não se repetiu com todas as trabalhadoras. Ainda que o território fosse majoritariamente negro, sabe-se que as relações são atravessadas por outras dimensões (gênero, trajetória e experiência) que reconfiguraram as possibilidades de aproximação. Ser um homem negro, identificado pela cor da pele, mas também pela posição de pesquisador e universitário, implicou circular entre lugares de reconhecimento e de distanciamento. Compreendemos que para algumas mulheres, a presença masculina pode gerar certa reserva. Para outras, a escuta respeitosa e o modo de presença no campo criaram um espaço de confiança.
As relações de pesquisa são atravessadas por marcadores sociais que organizam posições, expectativas e modos de interação no campo. No contexto brasileiro, raça e gênero constituem eixos centrais de produção de desigualdades e de modos de conhecer, incidindo sobre a confiança, a escuta e os sentidos atribuídos às interações (Bento, 2022; Gonzalez, 2020). Esses marcadores operam como dimensões estruturais do campo-tema, configurando assimetrias e paridades situadas que não dependem exclusivamente das características individuais dos sujeitos, mas também das histórias sociais que atravessam as relações.
Nas discussões realizadas ao longo da pesquisa no NETE, fomos levadas/os a questionamentos e reflexões frequentes que puseram em perspectiva o ponto de vista das participantes. Imaginávamos a situação de estar andando e trabalhando quando, de forma inesperada, surgiu um homem se apresentando como pesquisador, vinculado a uma universidade, demonstrando interesse no tema da maternidade. Esse tema, além de abordar o papel da mãe, envolve a esfera privada de suas/seus filhas/os, o que poderia gerar desconforto e resistência. Por isso, sentimos que os relatos sobre o trabalho informal emergiram mais facilmente, enquanto questões relacionadas à maternidade mostraram-se mais sensíveis, exigindo atenção redobrada ao modo como eram introduzidas nas conversas.
Inicialmente, estabelecemos como proposta de participação apenas mulheres acompanhadas por crianças durante o trabalho. Contudo, ao iniciar as observações, tornou-se evidente que esse critério restringia significativamente o universo da pesquisa, comprometendo a viabilidade do estudo. Portanto, revisar essa definição foi uma escolha acertada, ampliando o foco para incluir trabalhadoras ambulantes que fossem mães de crianças ou adolescentes no momento da pesquisa, independentemente da presença da/o(s) filha/o(s) no ambiente de trabalho. Durante a pesquisa, apenas uma trabalhadora foi vista acompanhada por duas crianças, mas, ao tentar estabelecer contato, ela se recusou a participar e demonstrou grande nervosismo, afastando-se rapidamente. Em nossas análises, esse episódio foi interpretado como reflexo dos conflitos enfrentados por essas mulheres, já que o trabalho infantil é uma prática irregular e elas podem temer julgamentos ou sanções ao serem associadas a essa realidade.
Outra estratégia foi optar por introduzir o TCLE apenas nos momentos finais das conversas iniciais. Apesar de parecer algo trivial no meio acadêmico, neste contexto de comunidades periféricas, o documento foi recebido com estranhamento e resistência. Essa diferença cultural foi um fator importante para compreender as dificuldades enfrentadas na formalização das participações. Apenas duas trabalhadoras, Márcia e Valéria, assinaram o TCLE, mencionando que já haviam participado de pesquisas anteriores, o que lhes proporcionou familiaridade prévia com os procedimentos de consentimento. Esse contraste evidenciou como experiências anteriores com pesquisa e a relação com o ambiente acadêmico influenciam a disposição das participantes para formalizar sua colaboração.
Além das razões já discutidas, pode-se levantar a hipótese de que a dificuldade em obter as assinaturas do TCLE também se relacione a dimensões socioculturais mais amplas. Em determinados contextos, o ato de assinar um documento pode despertar receios e desconfianças, seja por envolver o domínio da leitura e da escrita, seja por remeter a experiências anteriores com práticas burocráticas percebidas como distantes ou ameaçadoras. Embora nenhuma participante tenha explicitado essa relação, é possível que tais sentidos tenham permeado as interações.
Compreendemos que as configurações de gênero e as assimetrias de poder mostraram-se elementos fundamentais na construção das resistências observadas. As relações de gênero podem ter trazido desafios à construção de confiança em um ambiente marcado por estigmas sociais e por processos históricos de exclusão que afetam diretamente essas mulheres. Essas dinâmicas evidenciaram a necessidade de uma reflexão contínua sobre o papel de quem pesquisa, bem como é pelo respeito às subjetividades das participantes.
Reconhecemos que algumas trabalhadoras demonstraram desconforto em compartilhar suas histórias ou em formalizar sua participação na pesquisa. Esses momentos foram compreendidos como expressões das decisões e do posicionamento das participantes, parte legítima e natural do processo investigativo, reforçando a importância de uma abordagem ética e reflexiva. Enquanto pesquisadoras/es, precisamos valorizar as escolhas das/os participantes, respeitando às decisões para uma prática científica rigorosa e humanizada.
As informações foram produzidas pelas histórias compartilhadas por Márcia e Valéria, cujas trajetórias revelaram as nuances de um cotidiano atravessado pela precariedade, pela maternidade e pelas estratégias de sobrevivência. Essas narrativas evidenciam desafios enfrentados no trabalho informal, bem como práticas de cuidado e resistência que sustentam essas mulheres e suas famílias. O processo de construção dessas relações foi, em si, parte do trabalho artesanal da pesquisa (um fazer que se tece nas interações, nas escutas e nas pausas, respeitando os tempos e as possibilidades de cada encontro). A pesquisa, assim, alcançou seus objetivos e constituiu-se como um espaço de troca e aprendizado, ampliando o entendimento sobre as relações entre trabalho, maternidade e desigualdade em contextos de informalidade.
Durante um dos momentos de apresentação e sustentação da pesquisa, em um dos componentes obrigatórios do curso de mestrado, uma das professoras avaliadoras questionou o porquê da escolha desse campo-tema (além das justificativas já apresentadas de relevância social, acadêmica, etc.). Naquela ocasião, o mestrando relatou que, durante o exercício de visitar a praia e observar a trabalhadora ambulante, que vendia amendoim e estava acompanhada de sua filha. Essa cena evocou memórias de infância, marcadas pela experiência de acompanhar a mãe em atividades de venda ambulante no interior da Bahia, nas quais a ajudava na atividade laborativa. As lembranças de carregar e vender produtos de limpeza como um dos trabalhos desempenhado por sua mãe, permitiu estabelecer uma conexão entre experiências pessoais e o universo das trabalhadoras ambulantes. Essas memórias evocam o valor do trabalho e da sobrevivência em contextos precários, como também as dimensões do trabalho feminino e familiar, que é atravessado pelo esforço e pela criatividade para garantir o sustento cotidiano.
A interseção entre vivência pessoal e prática científica tornou-se um ponto significativo para essa investigação das relações entre maternidade e trabalho informal. Essa vivência pessoal trouxe reconhecimento e empatia diante das histórias das participantes e as estratégias de sobrevivência no trabalho informal. Essa resposta, nutrida pela evocação provocada pelo questionamento da professora avaliadora, permitiu a construção de parte da apresentação da dissertação (Santos, 2024). Mostrando que, ao longo do desenvolvimento da pesquisa, podemos experimentar novos ingredientes e relacionar a outras receitas.
A flexibilidade metodológica adotada foi sustentada por uma interação contínua com o grupo de pesquisa (NETE), que foi fundamental para refinamentos das estratégias de abordagem, registros e análises das informações produzidas. Essa colaboração assemelhou-se ao trabalho coletivo de uma cozinha, em que diferentes mãos e olhares contribuem para o preparo de um mesmo prato. O diálogo constante e compartilhamento de experiências fortaleceram o rigor acadêmico e consolidaram o compromisso com a construção coletiva do conhecimento, valorizando as contribuições de distintas perspectivas ao longo do processo investigativo.
A pesquisa constituiu-se como um exercício interpretativo dos sentidos que as trabalhadoras atribuíram às suas práticas e vivências. A produção de sentidos no cotidiano é construída por pessoas em interação, em contextos atravessados por relações de poder (Silva et al., 2025). Cada conversa, interação e momento compartilhado apontou as múltiplas camadas de um cotidiano permeado pela precariedade.
As informações relacionadas às participantes que optaram por não assinar o TCLE não foram utilizadas na pesquisa, mas as observações do pesquisador daqueles momentos contribuíram para a compreensão do contexto. De tal modo, esses registros, produzidos de forma reflexiva e sem identificação pessoal, permitiram reconhecer dinâmicas e situações relevantes observadas, que, posteriormente, inspiraram outras reflexões e produções acadêmicas, como Santos e Camilo (2024b, 2025b). Além disso, outras temáticas emergiram no campo-tema, como a questão do trabalho infantil, como apresentada em Santos e Camilo (2024c).
Por meio desta pesquisa, oferecemos uma leitura politicamente engajada e socialmente comprometida com a escuta dos relatos das trabalhadoras, evidenciando que as práticas investigativas foram produzidas com ajustes, negociações e interações. Assim como em uma cozinha, onde pratos são preparados com escolhas cuidadosas e adaptações, o processo de pesquisa exigiu flexibilidade, sensibilidade e atenção constante às demandas do campo-tema.
Desde o início, o trabalho investigativo mostrou-se dinâmico e necessitou de revisões metodológicas significativas. A definição inicial das participantes foi ampliada para incluir mães de crianças ou adolescentes, após constatar-se que os critérios originais limitavam a viabilidade do estudo. Essa decisão, comparável ao ajuste de uma receita para atender às condições reais da cozinha, foi crucial para que a pesquisa avançasse de forma mais inclusiva e representativa das realidades.
Embora percebamos que a identificação racial do pesquisador tenha facilitado aproximações iniciais, questões de gênero podem ter introduzido barreiras que exigiram adaptações nas abordagens. Recusas a participar da pesquisa, mesmo após conversas promissoras, revelaram a complexidade das dinâmicas de poder e confiança no contexto investigado. Assim como um chef ajusta os temperos para alcançar o equilíbrio ideal, o pesquisador precisou ajustar sua postura, priorizando a escuta ativa, o respeito às decisões das participantes e a construção de um ambiente seguro e acolhedor.
A decisão de introduzir o TCLE apenas ao final das conversas reflete um ajuste necessário às condições da pesquisa. Inspirado no modo como se cozinha coletivamente, atento às trocas, ritmos e preferências de quem participa do processo, esse gesto expressou o cuidado ético e o respeito às experiências das participantes.
As informações produzidas transcendem o ato de produzir; são resultados de interações sociais complexas e de negociações contínuas. As histórias compartilhadas por Márcia e Valéria ilustram os desafios do trabalho informal e da maternidade, além de destacar as estratégias de cuidado e resistência que sustentam essas mulheres e suas famílias. Esses relatos mostram que o conhecimento produzido não deriva apenas das ferramentas metodológicas empregadas, mas também das relações construídas no campo e das reflexões decorrentes dessas interações.
Abrimos as portas da nossa cozinha para evidenciar como o conhecimento científico é elaborado por meio de um processo que combina rigor metodológico, criatividade e sensibilidade. Com esse relato de experiência, demonstramos que a pesquisa é, acima de tudo, uma prática relacional, adaptativa e situada, em que cada decisão reflete particularidades do contexto e as interações entre quem pesquisa e participantes. Assim como um prato cuidadosamente elaborado, o resultado não é apenas a soma de seus ingredientes, mas também o reflexo de um processo criativo, ético e profundamente reflexivo.
Buscamos, neste artigo, discutir a metáfora da cozinha da pesquisa como recurso para refletir sobre as dinâmicas, escolhas e práticas que compõem o processo investigativo. Ao compartilhar um relato de experiência, enfatizamos como os desafios e ajustes metodológicos vivenciados durante a pesquisa configuraram um percurso artesanal e relacional, marcado pela necessidade constante de sensibilidade, reflexividade e compromisso ético.
A pesquisa foi apresentada como um processo em aberto, inacabado, em consonância com a compreensão de que a vida e os fenômenos psicossociais muitas vezes escapam à lógica e à racionalidade científicas. Nesse sentido, reconhecemos que as escolhas feitas ao longo do percurso investigativo não são neutras nem isentas de interferências, mas sim atravessadas por relações de poder, subjetividades e negociações.
Ao compartilhar essas experiências, nossa intenção foi estimular novos fazeres, incentivando pesquisadoras e pesquisadores a repensarem os lugares do poder e a inventarem novos contornos para a produção do conhecimento. Com base nas vivências e reflexões realizadas, buscamos tornar visíveis e dizíveis os processos que, ao se fundamentarem em gestos ético-metodológicos, traçaram linhas inventivas e transformadoras, compondo territórios mais sensíveis e humanizados na prática investigativa.
O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior — Brasil (CAPES) — Código de Financiamento 001.
Braz Isac Andrade Santos: redação – rascunho original; conceitualização; administração do projeto.
Juliana Aparecida de Oliveira Camilo: redação – revisão e edição; conceitualização.