Neste artigo, temos o objetivo de discutir como profissionais de um centro de atenção psicossocial infância-adolescência (CAPSia) em Salvador-Bahia, relacionam a noção de raça e racismo ao entendimento do sofrimento de crianças e adolescentes e como se operam os efeitos daí decorrentes.
Os CAPSia são serviços de saúde mental de caráter territorial e comunitário que oferecem acompanhamento especializado a crianças/adolescentes em sofrimento e suas famílias, tendo papel substitutivo ao modelo asilar de tratamento. A criação desse dispositivo é considerada um marco na assistência em saúde mental voltada ao público infanto-juvenil no Brasil, uma vez que inclui as necessidades de saúde mental no âmbito da atenção psicossocial (Couto e Delgado, 2015). Entretanto, muito tem se discutido sobre os limites e possibilidades desse modelo em relação à sua capacidade de ofertar um cuidado atento as necessidades da população negra (David, 2023).
Para Suzana Kalckmann et al. (2007), o racismo institucional na saúde, diz respeito à incapacidade das instituições do Sistema Único de Saúde (SUS) em exercer o papel de garantia dos diretos, reproduzindo, no âmbito das relações institucionais, discursos e práticas que reforçam as desigualdades sociais presentes na sociedade. Barreiras de acesso materiais e simbólicas, naturalização das experiências de vulnerabilidade e sofrimento da população negra, incapacidade de pensar a raça e o racismo nas narrativas de sofrimento são exemplos desse processo no cenário da saúde mental (Barros et al., 2022). Por isso, a Política Nacional de Saúde Integral da População Negra (PNSIPN) no Brasil aponta o redirecionamento do modelo de atenção à saúde (e de saúde mental), com um olhar específico para as necessidades das populações negras no âmbito do SUS, incluindo o marcador étnico-racial na implementação das políticas de saúde (Ministério da Saúde, 2010).
Emiliano David (2023) defende que a atenção desenvolvida no CAPSia responde em parte a essas necessidades, uma vez que, por concepção, esses dispositivos devem oferecer um tipo de cuidado mais atento às dimensões psicossociais, incluindo-se nos projetos terapêuticos singulares um olhar para alguns âmbitos das vulnerabilidades sociais, superando a lógica do manicômio. O estudo de Sônia Barros et al. (2022) vai nessa direção ao entrevistar profissionais de um CAPSia, tentando identificar estratégias de intervenção que sirvam contra o racismo institucional. Para as autoras, no cuidado à população negra, é necessário que as equipes de saúde mental tenham sensibilização para a temática racial, capacidade de ler o fenômeno do racismo nas suas mais diversas expressões, algo traduzido por Lia V. Schucman (2014) como letramento racial, além de escutar e interpretar o sofrimento oriundo do racismo como produto dessas relações sociais.
Em nosso entendimento, um dos efeitos do racismo é o sofrimento ético-político. Para Bader Sawaia (1999), esse conceito articula analiticamente subjetividade e sociedade na dialética inclusão/exclusão social, em suas próprias palavras: «a vivência particular das questões sociais dominantes em cada época histórica […] Sofrimento que surge da situação de ser tratado como inferior, subalterno, sem valor, apêndice inútil da sociedade» (Sawaia, 1999, p. 56). Essa abordagem favorece um olhar relacional para a categoria do sofrimento, ou seja, que considera a dimensão do poder, da violência e das relações sociais sempre presentes nesses fenômenos. Além disso, nos permite superar qualquer reducionismo psicopatológico, ampliando a linguagem sobre o sofrimento, através da análise da cultura e da sociedade (Moriá e Rasera, 2024; Safatle, 2018).
Assim, nos interrogamos sobre como os/as profissionais de saúde de um CAPSia entendem e acolhem o sofrimento de crianças e adolescentes negros/as e a maneira como identificam, explicam, interpretam ou relacionam essas experiências com o racismo. Apresentaremos, a seguir, os referenciais teórico-metodológicos da pesquisa, bem como os procedimentos de produção e análise de informações. A discussão foi organizada em três temáticas: a) uso de uma linguagem racializada na descrição do sofrimento; b) construção da identidade racial no processo de cuidado; e c) letramento racial na escuta e identificação do racismo.
O referencial teórico-metodológico é o da psicologia social construcionista, na perspectiva das práticas discursivas e produção de sentidos (PD&PS), desenvolvida por Mary Jane Spink (2013), submetidas às interrogações fomentadas pelos estudos sobre relações raciais no Brasil, desenvolvidos por Kabengele Munanga (1999/2020, 2017), Aparecida Bento (2002/2014), Sueli Carneiro (2023), entre outros/as. Nesta perspectiva, a linguagem é compreendida como uma forma de ação no mundo, é condição de possibilidade para configuração da realidade, uma prática, provoca efeitos, fazendo parte das construções, manutenções e mudanças que perpassam as relações sociais (Spink, 2010). Enquanto os discursos se referem à noção de regularidades linguísticas e ao uso institucionalizado da linguagem, refletindo contextos e relações de poder (linguagens sociais), as práticas discursivas se referem à linguagem em uso, marcada por uma dinâmica, com enunciados orientados por vozes, gêneros de fala e repertórios interpretativos. Segundo Mary Spink (2010, p. 27) as práticas discursivas são as «maneiras pelas quais as pessoas, por meio da linguagem, produzem sentidos e posicionam-se em relações sociais cotidianas».
Correlacionando essa perspectiva com o estudo do fenômeno racial no Brasil, podemos resgatar o trabalho de Carneiro (2023) que, numa abordagem foucaultiana, pensa o racismo no Brasil como produto de um saber poder que hierarquiza os seres humanos, através dos discursos sobre raça, relegando às populações não-brancas uma posição de não ser, ou seja, fora das possibilidades do conhecimento e do poder. Para ela, a racialidade é constituída de práticas sociais, discursivas, «produtora de um campo ontológico, um campo epistemológico e um campo de poder, conformando, portanto, saberes, poderes e modos de subjetivação cuja articulação institui um dispositivo de poder» (p. 44). Nessa perspectiva, entendemos que o racismo está atrelado aos seguintes discursos dominantes (linguagens sociais): o discurso do mito da democracia racial (Munanga, 1999/2020, 2017); e o discurso do branqueamento (Bento, 2002/2014).
O mito da democracia racial é uma ideia difundida no imaginário social de que o Brasil viveria uma espécie de democracia das raças, de forma que a origem de nossa história estaria atrelada a uma ancestralidade mítica e genérica advinda do negro africano e do índio brasileiro, que contribuíram com alguns aspectos de nossa cultura, misturados aos brancos portugueses que foram responsáveis por nos deixar o legado da civilização e as principais características de nossa organização social. É atribuído ao sociólogo Gilberto Freyre a formulação teórica dessa análise das relações sociais do Brasil Colônia que atribui à miscigenação de nossa cultura um caráter reificado e emancipador. De certo modo, essas ideias são absorvidas em um contexto político e social no qual buscava-se consolidar o capitalismo no Brasil, dentro de um tímido processo de industrialização e a necessidade de criar e fortalecer um sentimento unificador de nação (Bento, 2002/2014; Munanga, 1999/2020, 2017).
Ao mesmo tempo, a ideologia do branqueamento se consolida com a produção política e intelectual da elite branca no Brasil, em finais do século XIX e início do XX, quando se constrói, com base em princípios eugenistas, a noção de uma superioridade racial branca, a fim de defender a ideia de que a mestiçagem entre as raças levaria o país a embranquecer, superando a degenerescência das raças negras e indígenas. Desta maneira, fundamentou-se políticas afirmativas de incentivo à migração e acesso ao trabalho a grupos brancos eurodescendentes, ao mesmo tempo em que se consolidava no Estado Republicano políticas de encarceramento e genocídio aos outros grupos sociais não brancos (incluindo manicômios). Esses discursos fundamentam ainda hoje uma série de construções sociais e históricas que sustentam o branco como modelo do ser, um ideal a ser alcançado, reforçando o autoconceito e pertencimento dos grupos raciais brancos, ao mesmo tempo em que afetam os outros grupos raciais que sofrem os efeitos de estarem à margem concreta e simbolicamente dos padrões de humanidade (Bento, 2002/2014; Carneiro, 2023; Costa e Fernandes, 2021; Munanga, 1999/2020, 2017; Schucman, 2014).
A branquitude, nesse contexto, se expressa como símbolo de poder (Bento, 2002/2014; Costa e Fernandes, 2021; Schucman, 2014). Ela garante a supremacia branca nas relações sociais, econômicas, políticas e culturais, ao mesmo tempo que justifica as desigualdades sociais, prescindindo de um vocabulário racializado, uma vez que todas as pessoas são levadas a se identificarem com o branco (processo de branqueamento), ou se entenderem como mestiços (mito da democracia racial). Desse modo, permanecem intactas as relações de poder estabelecidas, ainda que processos de resistência e fissuras nesses discursos também possam existir (Bento, 2002/2014; Carneiro, 2023; Schucman, 2014).
O estudo das práticas discursivas, nesse caminho, tem como foco entender a maneira pela qual as noções de raça e racismo advindas desses processos históricos produzem efeitos nas relações cotidianas, em nosso caso particular, como profissionais de saúde mental colocam em prática a ideia de raça, como explicam e articulam o entendimento do racismo à escuta do sofrimento de crianças e adolescentes.
Além disso, nos inspiramos no conceito de racionalidades diagnósticas conforme apresentam Anna Turriani et al. (2018). Para essa autora e colaboradores/as, visibilizar a racionalidade diagnóstica de um modelo de tratamento em saúde mental tem a ver com compreender a forma como o sofrimento é escutado, as teorias e discursos que dão suporte às hipóteses sobre as causas desse sofrimento, bem como entender as intervenções terapêuticas decorrentes dessa interpretação. Por sua vez, apoiadas na vertente de uma psicopatologia crítica –que reinterpreta o conceito de patologia social, conforme sugerido por Vladimir Safatle (2018)–, entendem que os modos pelos quais, em determinados momentos históricos e contextos sociais, se opera uma racionalidade diagnóstica, têm como plano de fundo a legitimação de determinadas maneiras de sofrer em detrimento de outras. Assim, se o sofrimento ético-político é um produto do racismo, analisar essas articulações visibiliza não apenas o sofrimento, mas ajuda a explicar parte das engrenagens que sustentam o próprio racismo, uma vez que ele atua patologizando formas de vida consideradas socialmente como não normativas.
Neste artigo, analisamos um dos aspectos da pesquisa de mestrado desenvolvida pelo primeiro autor, com orientação da segunda autora, em um CAPSia em Salvador-Bahia (Alves, 2024). As pessoas entrevistadas compunham a equipe técnica da unidade, oriundas de diferentes categorias profissionais (farmácia, serviço social, terapia ocupacional, enfermagem, medicina, psicologia e artes). Eram, em sua maioria, mulheres cisgêneras, com nível superior e técnico, com tempo de atuação no serviço entre 2 e 12 anos e média de 7 anos. Essa equipe é multirracial, tendo pessoas que se autodeclararam brancas e negras (pardas ou pretas). Ninguém se declarou amarela ou indígena. Por questões éticas, evitaremos dizer a categoria profissional das interlocutoras citadas na discussão, uma vez que esta informação permitiria a identificação das mesmas, no contexto da rede SUS do município.
Agregados a esses registros, contei com a minha experiência como membro da equipe (João), entre os meses de setembro de 2019 e fevereiro de 2020, na condição de psicólogo-residente em formação na saúde mental. Na ocasião, determinado a lidar com a dimensão racial no contexto de atendimento ao público do serviço (majoritariamente negro), desenvolvi um projeto de educação permanente sobre questões raciais intitulado Lápis Cor de Pele, no qual organizei, junto à equipe, palestras, discussão de casos e metodologias de trabalho para intervenção em grupo. Das 17 pessoas entrevistadas, 13 participaram de pelo menos uma atividade do referido projeto. Por isso, as entrevistas conduzidas por mim assumiam dinâmicas conversacionais distintas, uma vez que a minha história na relação com elas entrava em cena. Resgatávamos episódios, casos e outros assuntos compartilhados anteriormente, dependendo do contexto dialógico.
Como primeiro autor do presente artigo, me autodeclaro homem branco, cisgênero, da classe trabalhadora, com a colaboração da segunda autora, autodeclarada mulher branca, cisgênero, com ascensão social via a possibilidade de aquisição a alto grau de estudos formais, ambos nascidos em Salvador-Bahia. Explicitamos que estivemos atentos/as aos nossos pertencimentos sociais em todo processo da referida pesquisa e desenvolvemos análises específicas sobre as configurações raciais da relação pesquisador-interlocutores/as em outros momentos do trabalho (Alves, 2024).
Analisamos neste artigo algumas das práticas discursivas produzidas pelos/as profissionais entrevistados/as quando descreveram casos emblemáticos de pessoas que acompanharam no CAPSia. Essa era uma das perguntas presentes no roteiro de entrevista, que visava estimular as/os participantes a resgatarem vivências no acompanhamento de crianças e adolescentes que, em suas concepções, estivessem relacionadas às questões raciais.
Ao usar a noção de caso emblemático não nos remetemos ao método do estudo de caso clínico em saúde mental, pois não realizamos análise do histórico, diagnósticos, terapêuticas e prognósticos de cada caso (Turriani et al., 2018). Todavia, analisamos elementos das racionalidades diagnósticas. Assim, entendemos os casos emblemáticos como narrativas contextualizadas sobre as práticas de cuidado em saúde mental, que visibilizam aspectos dos processos de racialização nas relações de cuidado, sejam nas interpretações sobre o sofrimento ético-político fruto do racismo (foco deste artigo) ou nas proposições de intervenção terapêutica.
Para organização do processo de análise criamos um esquema para dar visibilidade às interpretações (ver tabela 1). Nele, destacamos as conversas com as/os participantes em fragmentos dialógicos das entrevistas (FD), onde incluímos as perguntas e/ou provocações realizadas para incentivar o diálogo. Além disso, apresentamos notas que contextualizam o momento em que aquele assunto emergiu na conversa. Posteriormente, acrescentamos uma linha de análise onde escrevemos, com nossas palavras, as articulações ou hipóteses do sofrimento com as questões raciais.
Tabela 1. Esquema do plano de organização e análise de informações referente aos casos emblemáticos
| Título do caso emblemático |
| Fragmento dialógico - pergunta/contexto da conversa |
| (Trecho da conversa e pergunta) |
| Fragmento dialógico - descrição do caso emblemático |
| (Trecho do caso) |
| Dimensão de análise - sofrimento e questões raciais |
| (Aspectos analisados) |
Extraímos das 17 entrevistas, 22 fragmentos dialógicos (FD) que descreviam casos emblemáticos que, do ponto de vista das/os interlocutoras/es, estariam relacionados às questões raciais. Alguns casos se repetiram, sendo contados por diferentes pessoas. Desse conjunto, 16 casos (em 19 FD) envolviam crianças ou adolescentes negros/as, enquanto apenas três, envolveram histórias de usuários/as brancos/as, os quais não são analisados aqui por conta do foco desta análise.
A discussão produzida neste artigo, portanto, está centrada em três FD que abordam casos de crianças e adolescentes negros/as acompanhados/as no serviço. Escolhemos FD que melhor exemplificam os repertórios interpretativos que a equipe compartilha ao relacionar o sofrimento com as questões raciais. Além disso, tentamos visibilizar a diversidade de expressões de sofrimento identificadas. Os nomes citados são fictícios e foram escolhidos pelas próprias pessoas durante as entrevistas. Esta pesquisa possui Certificado de Apresentação de Apreciação Ética número 30373419.0.0000.5686.
No conjunto dos 16 casos emblemáticos identificados, em 11 deles, as expressões de sofrimento eram descritas como relacionadas à baixa autoestima, a questões com a autoimagem, negação do corpo ou cabelo e, em alguns momentos, a vontade abertamente expressa de ser branca/o, com a negação dos traços físicos ou identitários ligados à negritude (Alves, 2024). Apresentamos três temáticas considerando os conjuntos dos repertórios dos/as entrevistados/as: a) uso de uma linguagem racializada na descrição do sofrimento; b) construção da identidade racial no processo de cuidado; c) letramento racial na escuta e identificação do racismo.
Na entrevista com Catarina (autodeclarada branca) ela reflete sobre a construção racial em diferentes contextos do Brasil. Conta que se surpreendeu com o fato de existir racismo em Salvador-Bahia, pois imaginava que em um território com população majoritariamente negra não encontraria esse problema. Além disso, ela descreve como o sofrimento de muitas crianças e adolescentes negros/as acolhidos/as no CAPSia se relacionam com vivências de bullying por conta da cor da pele. E acha que a questão da relação com o cabelo é mais visível nos casos de meninas, mas finaliza seu comentário contanto a história de um menino que, em suas palavras, possuía depressão porque não queria ser negro (ver tabela 2).
Tabela 2. Análise do caso emblemático narrado por Catarina
| Caso do menino que não queria ser negro |
| Fragmento dialógico – pergunta/contexto da conversa |
| João: E como é a sua percepção sobre essas relações raciais aqui?
[Obs.: Essa pergunta se refere à Salvador, pois a interlocutora inicia a entrevista relatando efeitos das questões raciais no trabalho em saúde mental em outras regiões do Brasil por onde passou]. Catarina: Eu achei, eu achava no início que não tinha muito, porque em Salvador tem muito negro, tem muito mulato, tem muita miscigenação aqui, tem muito. Eu achava que aqui não tinha esse preconceito justamente, por isso. E tem. Foi uma surpresa assim, tem e não é pouco. E eu vejo assim, as meninas que vêm com depressão, com automutilação, sempre tem junto, associado, bullying por conta do cabelo, bullying por conta da cor da pele, tem. E era um lugar que eu, eu não esperava, porque se você for ver, não tem branco, caucasiano, a maioria […] aí tem preconceito e não é pouco. E aí, até a questão religiosa aqui, que eu achei também que não tivesse esse preconceito, tem. As pessoas têm assim «ah, eu fui pra Umbanda, a minha avó é evangélica, ela tá fazendo boicote comigo em casa por conta disso». Salvador, berço, né? São coisas assim, surpreendentes, eu fico sem saber nem o que pensar direito aqui. Por outro lado, eu vejo de um ano para cá, um ano e meio pra cá, a meninada negra assumir o cabelo crespo, cabelo black, sabe, assim, aquele orgulho? Parar de alisar o cabelo. Ok, quer alisar? Alisa, é um direito de todo mundo, não tem nenhum problema isso, mas, assim, você assumir a beleza da sua cor, a beleza do seu cabelo, sabe? É lindo isso aí, foi um movimento que eu vi muito e, assim, que me deixou muito feliz. É claro que a pessoa «não, não acho bonito, não quero», ok, não tem nenhum problema também, tá tudo certo, mas esse movimento de «vamos parar de fazer chapinha, e vamos usar o nosso cabelo, que ele é lindo e eu sou linda sim, enquanto negra, enquanto negro» é lindo. E, [é] assim, em relação às meninas… [já] os meninos, e só foi um menino que eu atendi aqui, o problema dele é que «eu não quero ser negro, não sou negro» e ele tem depressão por isso, porque ele não queria ser negro. João: Você poderia falar um pouco mais desse caso, como foi o desenrolar dele, acompanhamento? |
| Fragmento dialógico – descrição do caso emblemático |
| Catarina: Ele é um menino… Na verdade, assim, começou porque ele se apaixonou por uma menina e falou pros colegas, mas é aquela história, né? Aí a menina é branca, e ele é baixinho, a estrutura da família dele são pessoas baixinhas, ele é baixinho, aqui em mim [aponta a parte do próprio corpo onde a altura do menino alcança]. E aí ele contou para os colegas, as colegas falou [cantando] «o fulano gosta da fulana, quer namorar com ela, não sei o quê», e a menina ouviu. E aí, no meio da roda dos colegas, ele disse que queria namorar com ela, ela disse que não, porque ele era baixinho, e também porque era negro e ela não queria. Aí ficou assim, a partir daí, aí veio essa questão «não quero ser baixinho e não quero ser negro». Terminou que, pela questão da idade, ele foi para outro CAPS, mas tava bem, estava fazendo terapia, tava bem. Na verdade, foi uma rejeição ali, pontual, que acabou ficando um pouquinho magnificada, e junta com a questão do preconceito que existe com a rejeição que ele sofreu, né? |
| Dimensões de análise – sofrimento e questões raciais |
|
Chama atenção a forma como Catarina racializa o vocabulário psicopatológico, ao descrever a causa da depressão de uma/um criança/adolescente, dizendo «ele tem depressão […] porque ele não queria ser negro». Ela descreve uma experiência de rejeição afetiva em relação a uma menina branca na escola. Se considerarmos a leitura feita por ela sobre o contexto racial de Salvador-Bahia, como um lugar que não tem branco, caucasiano, esta situação oferece um contraste interessante, pois identifica uma situação de racismo entre pessoa branca e negra, como uma das causas para o sofrimento.
Ao final desse fragmento dialógico, Catarina acrescenta que foi uma «rejeição pontual», junto a situação de preconceito. Esse comentário parece minimizar ou, pelo menos, localizar o racismo no âmbito interpessoal, sem explicitar muito bem as conexões com outros elementos da cultura racista em que vivemos. Esse raciocínio talvez seja guiado por uma relação de causa-efeito, através da identificação de episódios explícitos de racismo que expliquem o sofrimento.
Uma escuta seletiva, desse modo, apenas será capaz de admitir a presença de racismo no sofrimento escutado quando há relatos de violência interpessoal, sendo o fenômeno interpretado por uma via mais individual, como racismo interpessoal. Além do mais, esse posicionamento exigiria que toda pessoa atendida, criança ou adolescente, tenha a capacidade de nomear o sofrimento a partir do racismo, o que, no contexto racial em que vivemos, nem sempre é possível, mesmo em Salvador, onde os discursos de resistência e valorização da cultura e identidade negra são muito presentes. Os estudos mostram que as crianças incorporam desde muito cedo informações sobre as categorizações raciais, assim, a capacidade de nomear ou de enfrentar situações que envolvem racismo está diretamente relacionada aos ambientes de socialização racial em que estão inseridas, no âmbito da família, escola ou outros espaços (Brasil et al., 2023).
Por isso, é preciso considerar que uma vivência de rejeição afetiva por conta da cor da pele possui grandes repercussões em um contexto social, no qual, a brancura é a norma (Bento, 2002/2014). A força de tal experiência na produção de sofrimento está ligada ao fato de que ela atualiza a verdade sobre as possibilidades de ser, dentro do dispositivo da racialidade (Carneiro, 2023). Desse modo, não querer ser negro, também pode ser lido como expressão da necessidade de ser aceito e amado em uma sociedade que produz violência e exclusão racial (Costa e Fernandes, 2021; David, 2023; Souza, 1983), ou seja, como uma patologia do social (Safatle, 2018), na medida em que essas expressões de sofrimento dizem respeito mais aos valores culturais impostos em nosso modelo civilizatório, do que uma produção individual de uma/um criança/adolescente em sofrimento.
Aline (autodeclarada parda) descreveu um caso emblemático de uma adolescente acolhida no CAPSia, que chegou com tristeza, se automutilando. Ela conta como, nas primeiras escutas, investigou a relação da garota consigo mesma, perguntando se a menina gostava de si. Explica que essa postura foi construída depois do Projeto de educação permanente Lápis Cor de Pele. (ver tabela 3)
Tabela 3. Análise do caso emblemático narrado por Aline
| O caso da autoconfiança |
| Fragmento dialógico – pergunta/contexto da conversa |
| João: Pronto. É… eu queria começar conversando sobre algo que você disse no dia da reunião que eu apresentei o projeto [da pesquisa de mestrado].
Aline: Sim. João: Você retomou, você falou que, que… conversar sobre essas questões seria interessante. Desde a época que a gente fez lá o projeto de educação permanente você achou que, foi o que eu entendi né, você achou que tinham coisas que foram importantes. Eu queria que cê, se você pudesse, retomar um pouco isso. Aline: Sim. Na realidade, porque assim. É… eu entrei aqui no CAPS né, e eu não tive uma oportunidade de treinamento de, de maneira nenhuma assim. De nenhuma… e, a chegada dos residentes acaba mexendo muito, movimentando muito a equipe. E seu trabalho foi muito importante pra gente, é… abrir o horizonte sobre, é… a questão racial. Então assim, eu nunca tinha despertado sobre esse olhar pra, é… pra tá fazendo os grupos terapêuticos né, com crianças e adolescentes. E depois de seu, do seu olhar de trazer, é… [contação de] histórias, identificar assim «ah, esse adolescente ele é negro?» «essa adolescente tem cabelo crespo?» «será que o que ela tá sofrendo, né, é… não é uma questão envolvendo sua autoconfiança?». Então assim, foi bem importante porque a gente, pelo menos eu, não tinha esse olhar, então eu consegui ver em algumas adolescentes um, um, em acolhimento, atendimento individual, que esse era um ponto «xis» em algumas sabe? Que realmente o sofrimento tava vindo daí, de uma discriminação, que ela tava sofrendo ou na escola um bullying. E que tava deixando ela dessa maneira. Então acho que foi bem importante pra dar essa movimentada e abrir horizontes, né, de, de, de trabalho, de… João: Cê falou em interesse em alguns casos, né? Você tem algum caso que pra você foi, foi realizado como exemplo, quiser dizer, um pouco como é que foi essa, o desenvolvimento dessa percepção… e eu quero… o acompanhamento, como foi? |
| Fragmento dialógico – descrição do caso emblemático |
| Aline: Ó, no caso de um acolhimento de uma adolescente, que ela chegou aqui numa tristeza, se automutilando. Não sei lhe dizer assim se só era isso, né, que tava envolvido. Mas a gente fez, eu fiz um acolhimento e uma segunda escuta. Ela não chegou a ficar aqui no serviço. Ela foi encaminhada prum, se eu não me engano foi um centro na época pra atendimento, pra psicoterapia né. É… que ela chegav… ela não conseguia conversar muito, se abrir muito. E depois que a gen… que eu fui, acho que foi eu e E. [outra técnica], se eu não me engano, nesse atendimento. Que a gente foi tocando no ponto, né, «como é que você se vê?», «cê tem alguma questão em você que, que mexe?», «quê que você gosta, que você quer, que você não gosta?». E a gente foi conseguindo visualizar que existia um sofrimento com essa autoconfiança que tava mexida ali, né. Eu acho que foi bem isso. Não sei se tinha outras coisas envolvidas, mas ela continuou, né, acredito ter continuado numa psicoterapia, né, ambulatorial, que era mais o perfil pra ela. |
| Dimensões de análise – sofrimento e questões raciais |
|
O primeiro aspecto desta narrativa que merece destaque é a postura ativa de Aline, ao investigar a construção da autoimagem da adolescente. Diferente de um raciocínio guiado pela identificação de uma causa ou acontecimento racista mais explícito (violência interpessoal), ela orienta seu trabalho assumindo que o sofrimento pode estar relacionado à dimensão racial, prescindindo de uma linguagem diagnóstica específica.
Além disso, Aline destaca como a educação permanente lhe deu alguma ferramenta para o trabalho naquele contexto, uma vez que, antes, ela atuava no serviço desde uma posição de quem não teve treinamento para o trabalho com a saúde mental infantojuvenil. Com isso, é necessário ponderar que um dos focos do projeto Lápis Cor de Pele foram os casos de adolescentes/crianças com queixas relacionadas à autoimagem, com negação do corpo e cabelo, bem como, a construção da identidade racial. Não é estranho, portanto, que Aline tenha esse elemento como um direcionamento no cuidado. Nos limitaremos a sinalizar esse aspecto do projeto, pois análises específicas da relação entre formação e educação para o trabalho com as questões raciais estão sendo produzidas em outro artigo.
Podemos refletir, ainda, sobre o repertório autoconfiança utilizado por Aline nesse contexto. Ele parece denotar uma experiência particular e individualizada de construção racial. Como se, para assumir-se negra, a adolescente precisasse apenas confiar em si mesma. O próprio encaminhamento para psicoterapia ambulatorial pode endossar esta interpretação. É como se o trabalho a ser feito fosse exclusivamente de modo interno ou individual. O limite desse raciocínio é a presunção de que o racismo, nesses casos, está sendo praticado da pessoa para com ela mesma, numa ideia de racismo introjetado (Barros et al., 2022), desconsiderando a cultura racista que nos permeia, e a possibilidade de atualização do racismo numa relação de cuidado com assimetria racial (Schucman et al., 2012).
Ao mesmo tempo, podemos destacar que olhar a dimensão pessoal da construção da identidade, não inviabiliza o trabalho terapêutico, muito pelo contrário. Baseadas nas contribuições de Neuza Souza (1983) para o entendimento desses processos, Jeane Tavares e Sayuri Kuratani (2019, p. 4) mostram como, no acompanhamento de pessoas negras, é preciso observar os processos de constituição da identidade racial, de modo que o espaço de cuidado favoreça o tornar-se negro/a, reconhecendo-se os diversos tipos de violências proporcionadas pelo racismo, e recriando uma nova identidade enquanto pessoa negra. Por isso, a relação com o corpo e outros elementos estéticos e culturais são citados como aspectos que podem ser mobilizados no processo terapêutico (Tavares e Kuratani, 2019). No trabalho de Cláudia Amorim et al. (2021), a produção de novos sentidos em torno da relação com o cabelo em mulheres negras, por exemplo, é apontado como um elemento fundamental da construção de identidade racial, protegendo-as, em alguma medida, dos efeitos do racismo (Amorim et al., 2021).
Utaualba (autodeclarada preta) narra um caso acolhido no CAPSia há alguns anos. O menino vivia em situação de reclusão e um dos principais sintomas estava relacionado à vontade de clarear a pele, e mudar os próprios traços do corpo, embranquecer, a ponto de fazer limpezas de pele com limão e argila. Nesse caso, Utaualba reflete como também passou a olhar para isso como algo ligado ao racismo depois de participar do projeto Lápis Cor de Pele. (ver tabela 4)
Tabela 4. Análise do caso emblemático narrado por Utaualba
| Caso da limpeza de pele |
| Fragmento dialógico – pergunta/contexto da conversa |
| João: Humhum. Sim. Entendi. E como é que você pensa essas coisas, trabalhando aqui no serviço, né? Pensando no seu lugar de mulher preta, no cuidado, é, no serviço, né? No cuidado dos usuários. Você acha que esse seu lugar, ele, de algum modo, influencia no processo? Não sei. Talvez na criação de vínculo? Ou, não sei se você já pensou sobre isso. |
| Fragmento dialógico – descrição do caso emblemático |
| Utaualba: Na verdade, eu não pensava antes. Depois que você lançou aquela discussão que eu vim começar a perceber outras questões de saúde mental de adolescentes. […] [por exemplo] um adolescente que estava em, em reclusão social, né? Ele não saía nem pra escola. […] o primeiro acolhimento que a gente fez foi da mãe. Ele não veio aqui. Então, a mãe veio contar toda a situação, a gente fez o acolhimento dela, e o acolhimento dele, a gente fez na casa dele. O médico foi […] e uma equipe. Ele dizia, ele queria ter o nariz fino. Ele é negro, pele preta, os traços negros. Então, ele queria ter a pele clara, fazia limpeza de pele direto, usava limão no rosto, tanto que ele ficou com umas manchas escuras, porque queimou e queimadura de limão é uma coisa terrível que não sai, né? E ele passava argila o tempo todo, limpeza de pele, limpeza de pele o tempo todo, porque ele queria clarear a pele. Mas, mas até então, eu não enxergava isso como um sofrimento voltado pra questão negra. Tanto que quando ele olhou pra J. [médico], e os demais da equipe: «Eles não têm um nariz nem tão afinado assim», ele falou, comparando. Então assim, eu achava que seria um delírio, mas que não estivesse voltado pra a questão de raça/cor, preconceito de, da pessoa não se enxergar né, como negra.
João: Humhum. Utaualba: Tava sendo um sofrimento pra ele, isso. |
| Dimensões de análise – sofrimento e questões raciais |
|
Destacamos, inicialmente, que a profissional refere ter interpretado algumas dessas queixas no passado como um delírio. Essa primeira leitura poderia sugerir um diagnóstico no qual o caso seria abordado dali em diante. Neste caso, a linguagem psicopatológica precisava dialogar com a temática racial, ampliando seu vocabulário e consequentemente as possibilidades de entendimentos e intervenções no processo.
Mesmo assim, vale insistir nesta reflexão, como um sintoma relacionado à identificação com a brancura poderia não remeter à questão racial? Uma expressão de sofrimento enfaticamente tão racializada que, em determinado momento, não era visto ou escutado como algo ligado ao racismo. Isso mostra como, nem sempre é óbvio para um/a profissional de saúde mental que a relação com o próprio corpo está atrelada à identidade racial.
Não basta crianças e adolescentes terem repertório para descrever o próprio sofrimento de maneira racializada, conforme discutimos no primeiro caso, pois, mesmo nessas situações, é necessário que profissionais de saúde mental construam um vocabulário que lhes permita escutar e cuidar das pessoas considerando essa dimensão. É preciso algum tipo de sensibilização na temática racial, um olhar crítico para esses processos históricos e sociais, a fim de aprender a lê-los no cotidiano e nas experiências das crianças e adolescentes em sofrimento (David, 2023), ou seja, é necessário construir letramento racial (Schucman, 2014). No caso de Utaualba, ter tido acesso ao projeto Lápis Cor de Pele ofereceu elementos para contextualizar essas narrativas de sofrimento de outro modo, entendendo o tipo de vinculação que elas oferecem a uma sociedade racializada.
Junto a isso, podemos explorar alguns possíveis sentidos ligados à expressão sofrimento voltado para questão negra. Em alguma medida, ela suscita um aspecto individualizado da vivência racial, como se as pessoas negras tivessem que se ver consigo mesmas, para resolver seus problemas. Parece uma ideia similar àquela evocada por Aline, no caso anterior, quando usou o termo autoconfiança.
Se considerarmos, ainda, na maioria dos casos aos quais tivemos acesso nesta pesquisa, o direcionamento das entrevistadas/os parecia caminhar quase sempre para esse mesmo lugar. Como se falar de racismo estivesse atrelado sempre à pessoa negra que não aceita ser negra. Nos momentos em que alguma alteridade branca era citada, como a menina branca no caso de Catarina, era quase como um deslize, um acidente de percurso. Já no fragmento de Utaualba, aparece a figura do médico branco, que serve como espelho de identificação ao adolescente que diz «Eles não têm um nariz nem tão afinado assim».
Do ponto de vista da crítica produzida nos estudos da branquitude, o racismo é um sistema que garante privilégios, de modo que se faz necessário revelar a alteridade branca que se beneficia desses processos de exclusão (Bento, 2002/2014). Olhando para a questão do sofrimento ético-político, a tensão racial existente em uma sociedade racista produz adoecimento porque a violência se atualiza em todos os espaços sociais, seja nas relações cotidianas, ou nos contextos macrossociais e institucionais, exigindo de nós, profissionais da saúde mental, um comprometimento com essas questões. Dito de outro modo, a questão negra identificada no sofrimento daquele adolescente precisa ser uma questão para toda a equipe, mais do que isso, deve ser contextualizada nas relações sociais entre pessoas negras e brancas dentro e fora do CAPS, logo ser uma questão racial e não reduzida a uma questão negra. Caso contrário, outras expressões de sofrimento que, por sua vez, não contem com um vocabulário socialmente difundido que viabilize a identificação do racismo como uma de suas causas, continuarão invisibilizadas.
Ao analisar práticas discursivas de profissionais de um CAPSia, visualizamos que boa parte dos casos de crianças e adolescentes negros/as associados às questões raciais pareciam circunscritos às queixas ligadas à baixa autoestima, a negação da autoimagem, a identificação com a brancura. É possível pensar que a identificação pela brancura é uma expressão de sofrimento que aparece como tentativa de pertencer, se sentir aceito, amado ou lidar com o racismo cotidiano, afastando-se das conotações negativas ligadas à população negra. Por outro lado, atribuir essas produções discursivas às pessoas negras individualmente, como algo interno, esconde como esses processos sempre estiveram aliados a contextos sociais e históricos mais amplos. Chamamos de ético-político essas expressões de sofrimento do público infanto-juvenil que canalizam a tensão social proveniente da violência racista, entendendo-as como patologias do social.
Analisamos três fragmentos dialógicos de práticas discursivas sobre casos emblemáticos e destacamos como a linguagem psicopatológica, na interpretação do sofrimento, precisa ser racializada, ampliando as possibilidades de cuidado. Todavia, chamamos atenção para as limitações de se abordar o racismo com foco na dimensão interpessoal, reconhecendo-o, apenas, nos momentos em que há descrição efetiva de violências discriminatórias. Desse modo, a identificação da dimensão racial depende do vocabulário racializado dos/as próprios/as usuários do serviço, algo que nem sempre é possível em nosso contexto histórico, onde se expressa fortemente a ideia de democracia racial.
Além disso, endossamos como a construção da identidade racial de crianças e adolescentes negros/as é um elemento fundamental no processo de cuidado. Mas refletimos como ela não deve ser vista como algo exclusivamente individual, um simples ajuste interno de autoestima ou autoconfiança da pessoa negra. É preciso considerar a dimensão do pertencimento coletivo que fundamenta a experiência do tornar-se negro/a.
Em algumas entrevistas que analisamos, um processo de educação permanente em saúde foi citado como divisor de águas que permitiu que as pessoas se aproximassem das discussões raciais e identificassem situações de sofrimento relacionadas ao racismo. Todavia, em alguns momentos, o olhar das/os profissionais parecia direcionado à procura da questão negra, como se falar de racismo e saúde mental fosse circunscrito a falar de sofrimento das pessoas negras. Poucas pessoas incluíam aspectos das relações raciais, refletindo, por exemplo, a alteridade branca às vezes presentes em situações de violência racial, ou no efeito das configurações interraciais de atendimento. Isso pode ser explicado, em parte, pelo foco do projeto de educação permanente citado anteriormente, ao abordar o sofrimento ligado ao racismo, mas suscita a necessidade de continuidade dos espaços de formação no serviço.
Concluímos que a escuta e o acolhimento orientados pela dimensão racial depende do letramento racial, do domínio de um repertório racializado na interpretação do sofrimento, que dialogue não hierarquicamente e sim complementarmente com a linguagem psicopatológica vigente.
Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado da Bahia – FAPESB.
João Batista: conceituação; investigação; metodologia; análise formal; visualização; escrita – esboço original; escrita – revisão e edição.
Mônica Lima: conceituação; metodologia; análise formal; escrita – revisão e edição; visualização; supervisão; administração do projeto.