As comunidades tradicionais no México vivenciam um processo histórico de assimilação e adaptação cultural que começou com a colonização espanhola no século XVI e continua até os dias de hoje, influenciando os modos de vida indígenas.
Esse processo de aculturação tem sido impulsionado por motivos políticos, econômicos, religiosos e sociais, frequentemente apresentada como um processo de «integração» das comunidades indígenas à cultura dominante, mas que, em termos históricos, tem operado muitas vezes por meio da anulação, substituição ou marginalização de práticas culturais dos povos originários, muitas vezes resultando na perda ou transformação de práticas culturais tradicionais. Neste artigo, os termos «aculturação» e «assimilação» são utilizados a partir de definições consolidadas no campo da antropologia, especialmente na tradição norte-americana do século XX. Entendemos aculturação conforme a formulação clássica de Robert Redfield et al. (1936), como o conjunto de transformações culturais que ocorrem quando grupos culturalmente distintos mantêm contato contínuo e direto, produzindo mudanças nos padrões culturais de um ou de ambos os grupos envolvidos. Tal definição não implica necessariamente a substituição integral da cultura indígena, mas enfatiza processos dinâmicos de adaptação, incorporação e ressignificação cultural.
Já o conceito de assimilação é aqui empregado em um sentido mais restritivo e crítico, conforme discutido por Milton Gordon (1964), referindo-se a processos nos quais grupos minoritários passam a adotar valores, práticas e referências simbólicas do grupo dominante, frequentemente acompanhados pelo enfraquecimento ou abandono de elementos centrais de sua identidade cultural. No contexto analisado, a assimilação é compreendida como uma tendência histórica associada a relações assimétricas de poder, especialmente no marco da colonização e da integração forçada das populações indígenas aos modelos socioculturais hegemônicos.
Nesse processo, muitas comunidades indígenas têm resistido e mantido viva sua identidade cultural, adaptando elementos da cultura dominante, mas preservando tradições próprias. Esse é o caso da comunidade indígena de Cuentepec, que, ao longo de sua história, tem atuado como agente de preservação cultural, tornando-se um exemplo de resiliência entre as comunidades Nahuas.
Alguns dos aspectos que fazem de Cuentepec uma comunidade especial são a preservação da língua indígena Nahuatl e a indumentária típica feminina. Cuentepec é uma das poucas comunidades Nahuas onde o vestido tradicional permanece em uso diário por grande parte da população feminina. No entanto, nos últimos anos, a comunidade tem observado uma rejeição, por parte das novas gerações de mulheres, à vestimenta tradicional.
A presente pesquisa teve como objetivo analisar o processo de aculturação que atravessa a comunidade de Cuentepec, especificamente a substituição da vestimenta tradicional por roupas «da cidade», e alguns movimentos de revitalização cultural que buscam revalorizar e proteger a indumentária tradicional indígena.
O estudo foi guiado pelos seguintes questionamentos: 1) Em que consiste a vestimenta tradicional feminina? 2) Como ela é afetada pelo processo de aculturação que a comunidade vivencia? e 3) Qual o papel da educação neste momento de transição sociocultural contemporânea?
Conclui-se que práticas educativas adaptadas às realidades da vida indígena, que respeitam e valorizam a cultura ancestral, são uma forma de empoderamento e resistência, fortalecendo a identidade e a coesão social dos grupos indígenas.
Este estudo adota uma abordagem qualitativa de inspiração etnográfica, orientada pela antropologia social, com ênfase na observação participante como principal procedimento de produção de dados, complementada por entrevistas semiestruturadas. O trabalho de campo foi realizado entre maio de 2022 e janeiro de 2023, período no qual foram efetuadas visitas recorrentes à comunidade de Cuentepec, registradas em diário de campo. As entrevistas foram conduzidas com mulheres da comunidade, educadores e outros atores locais, buscando compreender as percepções, práticas e significados atribuídos à vestimenta tradicional feminina e às transformações socioculturais em curso.
O procedimento de análise dos dados baseou-se na análise qualitativa de caráter interpretativo, articulando o material empírico produzido em campo com categorias analíticas provenientes da antropologia da cultura, da etnografia e dos estudos de etnoeducação. As falas dos participantes, os registros de observação e as imagens foram analisados de forma integrada, considerando seus contextos de produção e os significados socioculturais atribuídos pelos próprios sujeitos.
No que se refere às considerações éticas, todos os participantes foram informados sobre os objetivos da pesquisa, os procedimentos de coleta de dados e os possíveis usos acadêmicos do material produzido, tendo participado de forma voluntária. Para preservar o anonimato, foram utilizados nomes fictícios nos relatos e nas citações. As imagens incluídas neste artigo foram publicadas mediante consentimento dos participantes, respeitando os princípios éticos da pesquisa em ciências sociais.
Cuentepec é uma comunidade indígena Nahua do estado de Morelos, no centro do México. Possui uma superfície de 87.869 km e, de acordo com o Instituto Nacional de Estadística y Geografía (INEGI, 2020), tem uma população de 4.001 habitantes, sendo estes 2.026 mulheres e 1.975 homens. Na região predomina o clima cálido subúmido com temperaturas médias anuais entre os 28 °C e 30 °C. A cidade foi classificada pelo Consejo Nacional de Evaluacion de la Politica de Desarrollo Social Coneval (2012) como uma comunidade com um nível médio de pobreza.
A população cuentepequense mantém ativas até hoje suas instituições de governo tradicionais e seu sistema de cargos cívico-religiosos. Para Maria F. Paz (2009), uma das principais caraterísticas de Cuentepec que, a diferencia de outras comunidades da região, é o orgulho que a população sente por pertencer à tradição Nahua. Ao longo dos séculos, são essas pessoas que recriam, reinterpretam e negociam seus hábitos e costumes, em contextos históricos marcados pela colonização e pelo contato interétnico, mantendo viva essa cultura de forma dinâmica e não essencializada. A maioria da população, adultos e crianças, são falantes da língua nahuatl, e a conservação da tradição na comunidade acontece de forma consciente e decidida.
A respeito das formações de casais na comunidade, a endogamia, de acordo com Maria del C. Orihuela (2021), é uma pratica comum em Cuentepec, pois frequentemente homens e mulheres formam suas famílias, casando-se apenas com membros da mesma comunidade. Conforme a autora, a conservação desta prática patriarcal ainda contribui para que o povo cuentepequense conserve sua forma tradicional de vida. Hoje ainda não é aceito que pessoas externas à comunidade comprem terrenos da região, pois existe uma preocupação de não permitir indivíduos que não compartilham os mesmos princípios éticos e a mesma visão da comunidade, evitando, assim, que outros tenham direitos sobre o território e façam mal uso das terras.
Cuentepec é uma comunidade indígena que, através das suas praticas e dos seus fazeres cotidianos, reafirma sua tradição e suas crenças mais profundas, sua identidade étnica e seu sentido de pertencimento ao território.
Uma das principais características da comunidade é sua indumentária típica feminina. De acordo com Pineda e Barros (2025), atualmente, são utilizados dois tipos de vestuário tradicional: aquele que veste apenas as mulheres idosas; e um outro que é o mais comum e é utilizado pelas mulheres adultas e as mais novas.
A vestimenta constitui um elemento central na organização da vida social, tanto em comunidades indígenas quanto não indígenas, pois opera como um sistema simbólico por meio do qual os indivíduos expressam pertencimento, identidade, distinção social e valores coletivos. Conforme argumenta Marcel Mauss (2003), as formas de vestir não podem ser compreendidas apenas como escolhas individuais ou funcionais, mas como «fatos sociais totais», atravessados por dimensões simbólicas, econômicas, morais e históricas. Do mesmo modo, Roland Barthes (2005) e Pierre Bourdieu (2007) demonstram que a vestimenta participa ativamente da produção e da reprodução das identidades sociais, funcionando como um marcador visível de posição social, gênero, geração e pertencimento cultural. Nesse sentido, as transformações nos modos de vestir refletem processos mais amplos de mudança social, relações de poder e disputas simbólicas, razão pela qual o estudo da vestimenta se revela um campo privilegiado para a compreensão das dinâmicas culturais em diferentes contextos sociais.
Embora este estudo se concentre na vestimenta feminina, é importante assinalar que os processos de mudança no vestuário também afetaram historicamente os homens da comunidade. No entanto, diferentemente do que ocorre com as mulheres, a vestimenta masculina tradicional foi substituída quase por completo por roupas associadas ao contexto urbano, deixando de operar como marcador cotidiano de identidade étnica. Nesse sentido, a centralidade da vestimenta feminina reside no fato de que ela permanece como um dos últimos elementos visíveis e socialmente reconhecidos da identidade cultural cuentepequense, especialmente no espaço público. Assim, analisar a vestimenta das mulheres permite compreender de forma privilegiada as tensões entre continuidade cultural, gênero, aculturação e resistência simbólica.
Assim, o vestido das mulheres idosas consiste em quatro peças: uma saia plissada, um avental que cobre apenas a saia, uma blusa e um rebozo1.
Em algum momento do século XX (não existe um consenso de quando e por qual razão) a vestimenta tradicional feminina da comunidade de Cuentepec deixou de ser uma saia e uma blusa, passando a ser um vestido completo com um avental que cobre também a parte superior do vestido. As diferenças para os forâneos da comunidade podem não ser significativas, para o olho macroscópico da urbe todos os vestidos podem parecer iguais, porém existem diferenças marcadas entre os dois tipos de vestimenta.
O vestido que utilizam as mulheres adultas mais novas consiste principalmente em três peças: um vestido colorido acetinado, com a parte inferior plissada e um avental colorido, também com a parte inferior plissada; o avental é conhecido como mandil. Essas duas peças juntas formam o vestido, que também é conhecido na comunidade como kueuitl (a tradução literal ao espanhol é falda, que significa saia).
O kueuitl geralmente é acompanhado por um rebozo para cobrir as costas, sendo chamado também de payo. A antiga tradição diz que as mulheres solteiras deveriam vestir o rebozo aberto, enquanto as casadas deveriam cruzá-lo. Nos últimos anos, esses códigos têm caído em desuso e atualmente apenas as mulheres idosas prestam atenção a esse detalhe (Pineda, 2025).
Tanto o vestido como o avental são idealizados e confeccionados por mulheres cuentepequenses. Hoje, são quatro costureiras as que trabalham exclusivamente com a confecção do kueuitl. Na comunidade existem duas lojas onde é possível encontrar todos os materiais necessários para a realização da vestimenta: tecidos, aviamentos, fios e linhas, etc.
O principal tecido utilizado para o vestido é um jacquard acetinado, que na comunidade é conhecido como mismilia ou mismilinque pelo seu brilho. O tipo de jacquard empregado é o brocado, um tecido grosso e pesado, feito com tear de jacquard e tecido de cetim, na maioria das vezes com um padrão floral elevado. A posição dos fios faz com que o tecido seja muito resistente e, por causa disso, os vestidos da comunidade podem durar décadas. Já para o avental, é utilizado um tecido quadriculado chamado mascotin, com composição em poliéster e algodão, ideal para esse tipo de peça.
O rebozo é a única peça que não é confeccionada na comunidade, mas ele é vendido nas lojas locais. Ele vem do Estado do México, onde é feito em um processo completamente artesanal. É uma peça fina e exclusiva, e, nas palavras das mulheres da comunidade, uma peça cara. O preço dos rebozos disponíveis nas lojas da comunidade no momento desta pesquisa eram de aproximadamente $ 1.200 pesos mexicanos, equivalente, no ano 2023, a sete salários-mínimos diários do Estado de Morelos.
A tradição na vestimenta tradicional em Cuentepec tem se perpetuado por muitas gerações. Infelizmente, não existem dados nem registros históricos de quando ou como o kueuitl começou a ser utilizado, mas as mulheres na comunidade mencionam que as suas mães já se vestiam dessa maneira, assim como as suas avós e as suas demais ancestrais.
Atualmente, Cuentepec experimenta um processo de transição acelerado, e muitas mulheres das novas gerações não querem mais utilizar o kueuitl. Contudo, mesmo com este cenário de mudanças, a indumentária da mulher indígena de Cuentepec continua a ser um símbolo cultural único e inconfundível da sua comunidade.
Cuentepec, igual a muitas comunidades indígenas do estado de Morelos, atravessa um processo acelerado de aculturação. As pessoas da comunidade estão em contato contínuo com outras culturas. Os sistemas de comunicação e as novas tecnologias de informação têm facilitado a relação entre os indígenas e as pessoas da urbe. Como consequência dessa exposição a novas realidades culturais, a comunidade está experimentando transformações em determinados processos sociais.
A responsabilidade da mudança recai principalmente nos jovens, pois geralmente são eles quem têm maior contato com os aspectos globais. São eles os que precisam migrar procurando melhores entornos educacionais ou melhor qualidade de vida. De acordo com Pineda (2024), são os jovens os principais transformadores do território cuentepequense, e esse fenômeno é perceptível na vestimenta.
O processo de transição que atravessa a comunidade começou a acentuar-se há pouco mais de vinte anos. Conforme Orihuela (2021), Cuentepec tem sido especialmente marcado por três momentos principais. O primeiro deles é a construção da rodovia no ano de 1990, que facilitou a comunicação e estabeleceu uma via rápida entre a comunidade e o resto do estado de Morelos. Como consequência, o fluxo migratório aumentou consideravelmente, e as transações comerciais entre os cuentepequenses e os centros urbanos cresceram exponencialmente, tornando-se uma das principais alternativas econômicas para a população.
A rodovia mudou para sempre a dinâmica dos cuentepequenses. Atualmente, mais de 540 pessoas saem da comunidade todos os dias, em 11 caminhões, além de diversos carros particulares, que partem lotados entre 5 e 8 horas da manhã. Muitas vezes, os cuentepequenses ficam fora da comunidade a semana toda e voltam apenas no fim de semana. Dessa maneira, o fluxo migratório e o impacto econômico gerado por este provocaram mudanças decisivas na transição cultural de Cuentepec.
O segundo momento sinalizado pela autora acontece no ano de 2001 com a chegada à comunidade do campus do Bacharelado EMSAD-COBAEM, uma escola do subsistema de Ensino Médio a Distância que oferece um bacharelado geral por meio de um modelo multimodal (materiais, tecnologia, tutoria) para ampliar a cobertura educacional, especialmente em áreas rurais. Nesse ano, pela primeira vez na história, os jovens de Cuentepec têm acesso a um nível médio superior de estudos sem precisar sair para estudar em outras cidades. A educação teve um papel muito importante na transição social dos cuentepequenses e principalmente das mulheres, pois muitas delas passaram a questionar as normas sociais que lhes foram impostas desde crianças, entre elas a vestimenta.
O terceiro momento acontece com a chegada dos programas sociais. Depois do ano 2000, Cuentepec começou a receber programas e projetos de integração com apoios dirigidos às mulheres. Algumas instituições governamentais implementaram programas de apoio ao trabalho das artesãs cuentepequenses. Esses programas incluíam orientação sobre marketing de negócios, técnicas de comercialização e difusão, entre outros. Os programas sociais contribuíram para que muitas dessas mulheres conquistassem uma nova realidade social com uma certa independência econômica, fato que também contribuiu para a transição social na comunidade.
O abandono do uso do vestido tradicional por parte de algumas mulheres da comunidade pertence ao processo de abertura e à incorporação a uma nova realidade externa. Um processo que afasta uma vida hermética intracomunitária.
Com a intenção de falar sobre as mudanças na comunidade, e principalmente as mudanças na vestimenta, visitamos a casa da dona Carmen (uma senhora de 97 anos, nativa de Cuentepec) e da sua filha, Maria (Figura 2). A dona Carmen não falava espanhol, mas a Maria traduziu toda nossa conversa para ela. A primeira coisa que comentamos foi sobre as diferenças entre os vestidos das duas: Maria, que é mais nova, utiliza o vestido completo de três pecas, já dona Carmen usa o vestido antigo de blusa, saia e avental cobrindo apenas a parte inferior.
Dona Carmen disse que ela sempre usou esse tipo de vestido porque assim está acostumada, há alguns anos ela mandou confecionar um vestido completo e tentou usá-lo, porém nunca se sentiu confortável e acabou voltando ao traje de duas peças. Já a Maria é o caso contrário, ela nunca usou o mesmo tipo de vestido da mãe, pois, segundo ela, apenas as mulheres idosas gostam. A Maria usa desde sempre o kueuitl atual de três peças.
Para Carlos Herrejón (1994), esse tipo de mudanças nas vestimentas tradicionais é normal e necessário para a prevalência das tradições. De acordo com o autor, para que uma tradição de fato prevaleça no tempo, é preciso haver correspondência, ou seja, a tradição tem que ser cíclica: o ciclo de uma tradição começa com a ação em virtude da qual alguma coisa é transmitida, a essa ação segue em correspondência a recepção do que é transmitido. Junto com a recepção, inicia-se um processo de assimilação: o conteúdo transmitido passa a formar parte do destinatário e, ao mesmo tempo, o destinatário ajusta e recria o conteúdo. A assimilação da tradição implica a atualização da mesma tradição. Uma vez assimilada, a tradição entra em uma fase de estabilidade, mas estabilidade não significa imobilidade. Nesta fase, o destinatário conserva o recebido como um patrimônio, pois de outra forma não haveria identidade, mas ao mesmo tempo ele enriquece, reduz ou modifica o recebido. Essa dinâmica faz com que a tradição conserve seu caráter vital. Nesta última fase, junto com a possessão, volta uma vez mais a transmissão e assim o ciclo é encerrado.
Pensar o vestido tradicional cuentepequense através do ciclo da tradição nos ajuda a entender o dinamismo do mesmo. Para que a tradição do vestido permaneça no tempo, é preciso que ela caminhe junto com ele. De acordo com Herrejón, (1994), a tradição é uma sucessão temporal e, como tal, é uma mudança necessária para prosseguir. Luis M. Morayta (1993) também concorda que a mudança faz parte da tradição, pois esta precisa acompanhar as diversas transformações sociais, mas também menciona que, mesmo na mudança, a tradição pode preservar sua essência, seu caráter vital, tal como acontece com o kueuitl da Carmen e Maria:
Na realidade, é um processo contínuo de mudança, de substituições, adaptações, reinterpretações, perdas, incorporações e persistências de todos os tipos que ocorrem todos os dias na vida cultural das pessoas, como respostas às grandes transformações da sociedade. Às vezes, neste processo, perdem-se definitivamente aspectos fundamentais. Em muitos outros, as mudanças são mais de forma do que de essência. (Morayta, 1993, p. 133)
Em um ciclo natural e orgânico, o vestido cuentepequense das gerações passadas foi recebido, assimilado e transformado em um vestido de uma peça. Esse processo de mudança fez ele sobreviver e se reproduzir sem perder a sua identidade fundamental. De acordo com Roque Laraia (2007), esse tipo de mudança cultural pode ser classificada como interna e é resultante da dinâmica do próprio sistema cultural. As mudanças internas são lentas e como nos vestidos da Maria e Carmen as diferenças podem ser quase impercetíveis ao olho nu.
Porém, existe também um outro tipo de mudança, aquela que resulta do contato de um sistema cultural com outro. Esse tipo de mudança é rápida e brusca, como a substituição do vestido tradicional pela vestimenta da cidade.
Falando sobre isso, questionamos a Maria e a Carmen sobre a razão pela qual as gerações de mulheres mais novas não queiram mais usar os vestidos tradicionais. A Maria atribui esse desinteresse pelos vestidos à tecnologia. De acordo com ela, agora as meninas têm referências que ela, por exemplo, não teve quando criança:
Eu acho que é porque agora elas têm internet e assistem televisão e tudo isso, por isso elas começam a usar calça, agora elas pensam diferente. Quando eu era criança, a gente não tinha televisão e não saíamos da comunidade, quase ninguém ia para Cuernavaca, apenas meu pai ia a cavalo. A gente não tinha vontade de usar outras roupas. (Maria, entrevista pessoal, agosto 2022)
Sobre o tema, Byung-Chul Han (2020), no seu ensaio do desaparecimento dos rituais, faz uma reflexão sobre o mundo contemporâneo e toma como ponto de partida a tecnologia. O autor diz que a sociedade moderna está numa incessante busca por destaque. As pessoas não se relacionam mais com a comunidade, mas apenas se referem ao seu próprio ego, buscando sempre novos estímulos e experiências.
A percepção da Maria sobre as novas gerações cuentepequenses que estão em contato com as sociedades ocidentais ganha sentido nas palavras do Han quando ele diz que a busca pela novidade nos faz perder a capacidade de repetir, pois os dispositivos neoliberais de autenticidade envolvem uma compulsão para a busca do novo. Segundo o autor, a formação de sentimentos coletivos passa a ser menos frequente, nessa proporção, indivíduos isolados são predominantes.
Respondendo à mesma pergunta, a dona Carmen confessa não entender as razões das mulheres novas para usarem calças e roupas que ela considera masculinas. Nas palavras de dona Carmen, as mulheres são bonitas apenas quando vestem o kueuitl (durante a nossa conversa, mãe e filha começaram a rir, pois lembraram que dona Carmen fica brava quando as netas vestem calça e fica pedindo para elas colocarem um vestido porque não gosta de vê-las parecendo homens).
Perguntamos à dona Carmen se ela chegava a utilizar calça quando fazia muito frio e ela rapidamente respondeu que não, pois quando o tempo está muito frio, ela utiliza um rebozo de algodão mais grosso que é mais quentinho e as protege melhor do clima frio.
O desconforto da dona Carmen frente às mudanças é um fenômeno compreensível e uma constante na história social. De acordo com Laraia (2007), toda mudança, por menor que seja, tem atrás numerosos conflitos. Para o autor, as sociedades humanas são palco do embate entre tendências conservadoras e inovadoras o tempo todo. As primeiras pretendem manter os hábitos inalterados, muitas vezes atribuindo aos mesmos uma legitimidade de ordem sobrenatural. As segundas contestam a sua permanência e pretendem substituí-los por novos procedimentos.
Assim, uma mulher cuentepequense pode hoje usar uma calça porque antes dela numerosas jovens suportaram zombarias e recriminações. «Por isto num mesmo momento é possível encontrar numa mesma sociedade pessoas que tem juízos diametralmente opostos sobre um novo fato» (Laraia, 2007, p. 99). Assim, enquanto algumas mulheres não querem saber mais sobre a vestimenta tradicional, outros lutam pela sua permanência, por exemplo, os educadores.
Diante da decadência do uso do kueuitl por parte das gerações mais novas, no ano de 2018, vestir o traje tradicional cuentepequense todas as segundas-feiras passou a ser uma imposição para as crianças por parte das escolas de educação básica em Cuentepec. A população parece ter muito presente na memória uma reunião que aconteceu na época, nas instalações da escola, onde participaram docentes e pais de família para discutir a necessidade do resgate da indumentária tradicional:
Inclusive, há alguns anos, quase se perdia a vestimenta. Mas houve uma reunião na escola primária, dos dois turnos (matutino e vespertino) e combinaram que o uniforme seria a roupa típica, e até hoje é assim. Às segundas-feiras as meninas vão para escola com essa roupa. (Lupe, observação participante, agosto 2022).
Na escola aconteceu a reunião para fazer o resgate do vestido porque é como tudo, as crianças não falam mais nahuatl porque não ensinam desde pequenas. As meninas não usam a vestimenta porque já tiraram delas desde pequenas. Por isso se fez o resgate na escola. (Ana, observação participante, setembro 2022).
Nessa reunião foi explicada a importância do labor e foram decididas as cores dos trajes que as crianças utilizariam, assim como todos os detalhes da nova obrigação das crianças indígenas. A partir desse ano, as meninas e meninos da escola primária (Ensino Fundamental), turno matutino e vespertino, passaram a vestir a indumentária tradicional às segundas-feiras.
Os vestidos uniformes da escola primária são exatamente iguais ao kueuitl da mulher adulta. As meninas do turno vespertino utilizam um vestido e avental na cor roxo (Figura 3) e as meninas do turno matutino utilizam um vestido e avental na cor azul. No caso dos meninos, também existe um uniforme para as segundas-feiras: camisa de manga comprida e sandálias.
Após algum tempo, o jardim de infância da comunidade imitou a ação da escola primária e estabeleceu o kueuitl como uniforme de segundas-feiras para as meninas menores. No caso delas, o traje deve ser da cor branca (Figura 4) e tem algumas pequenas diferenças com relação ao vestido de adulto, pois não tem decote na frente e é aberto, apenas, pela parte traseira, para facilitar o ato de vesti-las.
Procurando conhecer mais sobre essa ação por parte da escola, conseguimos uma entrevista com o professor Omar, diretor da escola primária indígena Miguel Othon de Mendizabal, turno matutino em Cuentepec (Figura 5).
Numa sexta-feira, o diretor me recebeu nas instalações da instituição, após o horário escolar, para conversarmos sobre o vestido tradicional e a iniciativa de utilizar o vestido como uniforme.
O professor Omar é uma pessoa com profundos conhecimentos sobre a comunidade de Cuentepec. Ele não é originário de lá, pois nasceu em Xoxocotla (uma outra comunidade indígena do estado de Morelos), porém, ele sente um carinho especial por Cuentepec e os cuentepequenses, uma vez que foi lá onde ele começou sua carreira profissional no ano de 2002 como professor e, agora, ocupa o cargo de diretor da escola primária.
A nossa conversa com o professor foi longa. Praticamente, ficamos a tarde inteira em sua sala e nem percebemos o tempo passar. O professor é daquelas pessoas que você nunca fica cansado de escutar.
A entrevista começou quando perguntamos a ele por qual razão as novas gerações de mulheres não querem utilizar mais o vestido tradicional da comunidade.
Na opinião dele, as crianças e os adultos da comunidade não valorizam o que têm e sempre estão querendo imitar as pessoas da cidade. O professor comenta que as novas gerações de mulheres pararam de usar o kueuitl porque sentem vergonha dessa vestimenta. Porém, esse sentimento não é infundado, de acordo com Yves J. La Taille (2000), a vergonha acontece quando uma circunstância vem arrancar o sujeito de seu estado de confiança relaxada:
Percebe que o modo como se vê mostra-se em desajuste com o modo como se vê visto. Como imagem e sujeito se confundem, o sujeito reconhece não ser o que pensava ser e teme o juízo dos outros, uma vez que sua nova e indesejada representação é a imagem que os outros podem vir a ter de si. Está formada a base para a vergonha. (La Taille, 2000, p. 4)
Para o autor, a vergonha se configura no encontro de dois sentimentos: a inferioridade e a exposição. De acordo com o professor Omar, o vestido tradicional faz com que, em cidades como Cuernavaca, as mulheres sejam imediatamente, identificadas como indígenas. Esse foco faz que elas se sintam menosprezadas e rejeitem a vestimenta tradicional. A inferioridade que algumas mulheres cuentepequenses sentem é causada por opiniões negativas que os outros têm de sua imagem projetada e a exposição acontece quando elas são visadas por alguém legitimado, ou seja, as pessoas da urbe:
As pessoas da cidade acreditam que as pessoas indígenas não têm a capacidade para sobressair. E fazem ações para discriminar os indígenas. Muitas mulheres daqui da comunidade vão trabalhar como domésticas na casa das pessoas da cidade e elas se sentem menos por isso. Dificilmente alguém abre as portas para uma mulher de Cuentepec (para desempenhar outras atividades profissionais). Então, para não serem identificadas como mulheres de Cuentepec, elas utilizam roupas da cidade. (Omar, entrevista pessoal, setembro 2022).
A vergonha instaura-se no encontro da inferioridade sentida quando a imagem projetada pelo sujeito se encontra aquém da «boa imagem» que tem para si, com a visibilidade de expor essa imagem a um sujeito legitimado (La Taille, 2000). Para o professor Omar, o papel da escola é frear esta situação e conscientizar as crianças indígenas do seu valor e fazê-las ver que a cultura delas e o que elas têm vale tanto quanto o que outros têm lá fora:
Eu acho que quando a escola conseguir fazer as crianças da comunidade enxergarem que a identidade delas tem o mesmo valor que todas as demais é quando vamos conseguir avançar e conservar e fazer que as meninas continuem usando o vestido. (Omar, entrevista pessoal, 2022)
Nesse sentido, Malory Jiménez (2012) ressalta a importância e a necessidade de que as escolas nas comunidades indígenas implementem novos modelos pedagógicos para contrariar a tendência de aculturação.
A etnoeducacão se apresenta como uma alternativa para fortalecer o sentimento de pertencimento dos seus habitantes, a fim de perpetuar legados e promover o desenvolvimento social. Santiago Quiñonez define etnoeducação como um processo social permanente, que parte da própria cultura:
Consiste na aquisição de conhecimentos e no desenvolvimento de valores e competências que preparam o indivíduo para o exercício do seu pensamento e da sua capacidade de decisão social, segundo as necessidades e expectativas da sua comunidade. (Quiñonez, 2019, p. 12)
Para o autor, a etnoeducacão cumpre a função de relocalizar, revalorizar e finalmente atualizar as memórias ancestrais, dando um novo olhar ao passado, mesmo o mais remoto; chave para a reinterpretação e ressignificação do presente em termos de futuro. Isso é precisamente o que o professor Omar busca para a escola primária de Cuentepec. Ele, junto com os professores, tem desenvolvido algumas iniciativas, entre elas, o estabelecimento do vestido como uniforme oficial das segundas-feiras. Segundo o professor, anteriormente as crianças utilizavam um uniforme normal, como muitas outras escolas do estado, mas diante da perda do costume do traje típico e da rejeição do vestido por parte das crianças, a escola primária (turnos matutino e vespertino) viu-se na necessidade de estabelecer medidas para resgatar a tradição: «A ideia é que as crianças se sintam identificadas com esse vestido para que continuem utilizando-o. Não só aqui na escola, mas também em outros contextos» (Omar, entrevista pessoal, 2022).
De acordo com o professor, a comunidade está perdendo aos poucos esse valor que a vestimenta tem e essa rejeição está acontecendo também com a língua, pois algumas pessoas também não querem mais falar nahuatl:
Aqui na escola eu sempre recebo reclamações porque os pais querem que os filhos aprendam espanhol e não nahuatl, pois eles querem que os filhos não tenham problemas para comunicar-se em Cuernavaca. (Omar, entrevista pessoal, 2022)
A estratégia de etnoeducação parte dos princípios da autonomia, da participação comunitária, da interculturalidade, da diversidade linguística e da coesão social, fundamentada na territorialidade. Estes princípios estão presentes na própria educação, na ação da família e da comunidade, e no conhecimento dos mais velhos (Ministério da Educação [MEC], 1990).
A imposição do kueuitl na escola primária é uma estratégia que pretende que as novas gerações aprendam a viver de acordo com sua própria cosmovisão. Inclusive, as escolas de educação primária de Cuentepec decidiram que todas as professoras, mesmo não sendo nativas da comunidade, passariam também a utilizar o kueuitl todas as segundas-feiras (essa estratégia se implementou alguns meses após minha pesquisa de campo):
As crianças querem imitar as pessoas que admiram. Se eu sou criança e enxergo os meus professores usando o vestido, também vou querer usar. Às vezes, eles (as crianças) querem imitar até nossa forma de falar. Por isso, agora as professoras também vão utilizar o vestido, mesmo algumas delas não sendo da comunidade. (Omar, entrevista pessoal, 2022)
De acordo com Álvarez (2023), o papel do professor requer uma mudança enquanto cultivador/educador daquele que, nas escolas tradicionais, é apenas o reprodutor ou teórico. A diferença entre esses dois tipos de aprendizado diz respeito ao engajamento do professor e do aluno em relação àquilo que se ensina e se aprende. «Não há separação entre o saber e o fazer, entre a prática e a teoria. É na prática, nos eventos, que os mestres cultivam suas transmissões. Uma prática encarnada “fala” mais do que mil discursos vazios» (Álvarez, 2023, p. 808).
O dia que entrevistamos o professor, também tivemos a oportunidade de conversar com a Diana, uma menina cuentepequense que estuda no ensino fundamental, no turno da tarde. Quando lhe perguntamos sua opinião sobre o uso do vestido tradicional da comunidade nas segundas-feiras, ela respondeu que gosta, mas que prefere uma outra cor: «Gosto sim, mas eu queria que fosse amarelo ou verde (Diana, entrevista pessoal, agosto 2022)». Ela, assim como a maioria das meninas cuentepequenses, utiliza o vestido tradicional apenas nas segundas-feiras no período escolar. No dia a dia, para brincar com as amigas e ficar em casa, ela prefere usar shorts ou calças, não sabe explicar o porquê.
A análise das falas e das práticas observadas na comunidade indica que os interesses em torno da vestimenta tradicional feminina não são homogêneos nem consensuais. Para parte da comunidade, especialmente entre pessoas mais velhas, educadores e lideranças locais, a vestimenta feminina constitui um símbolo central de pertencimento, identidade e continuidade cultural, razão pela qual sua preservação é percebida como necessária diante dos processos de aculturação. Entre as gerações mais jovens, no entanto, os interesses em relação ao uso cotidiano do traje tradicional são mais ambíguos, marcados por tensões entre o desejo de pertencimento comunitário e a busca por integração em outros espaços sociais, onde a vestimenta indígena pode ser associada à discriminação ou ao estigma. Nesse contexto, a revitalização do uso da vestimenta tradicional feminina, particularmente no espaço escolar, configura-se simultaneamente como uma estratégia de valorização cultural e como uma forma de imposição institucional, evidenciando as disputas simbólicas e geracionais em torno da definição do que deve ser preservado, transformado ou abandonado na vida cultural da comunidade.
Para os docentes da escola primária de Cuentepec, a tentativa de resgate da vestimenta e outras ações etnoeducacionais, como o ensino da língua nahuatl, tem a finalidade de que a comunidade preserve esses valores que os tem caracterizado por tantos anos. Segundo o professor, os resultados dessas iniciativas não são visíveis agora e, na sua opinião, só serão possíveis de enxergar no médio e longo prazo. Ele espera que alguma semente seja semeada e que essas pequenas ações contribuam para que os membros da comunidade valorizem mais sua cultura e sua história.
A aculturação é um processo complexo e multifacetado que envolve a assimilação de elementos culturais dominantes, geralmente provenientes de sociedades colonizadoras ou das elites locais, por comunidades indígenas. Compreender esse fenômeno é essencial para abordar os impactos da modernização sobre as sociedades tradicionais. Diante disso, este estudo analisou o processo de aculturação vivenciado pelo grupo indígena de Cuentepec, no México, com foco na perda da vestimenta tradicional feminina e nas formas de adaptação e resposta dos habitantes de Cuentepec.
Nossa pesquisa trouxe informações relevantes para ampliar o entendimento da cultura nahua e suas transformações socioculturais. No decorrer deste artigo, apresentamos uma explicação detalhada sobre as vestimentas tradicionais de Cuentepec, identificamos algumas diferenças entre os trajes das mulheres idosas e das mais jovens e analisamos as transformações dessas roupas através do ciclo da tradição. Situamos no tempo eventos históricos que modificaram a realidade social das mulheres de Cuentepec, contribuindo para o abandono do uso do vestido tradicional por parte de algumas mulheres da comunidade, que, diante de uma nova realidade social, passaram a questionar normas impostas desde a infância, entre elas a vestimenta. Abordamos ainda algumas ações afirmativas que buscam resgatar o uso da indumentária tradicional.
Conclui-se que estratégias etnoeducativas, que propõem uma abordagem educacional que respeita e incorpora os conhecimentos, práticas e valores das comunidades às quais os alunos pertencem, podem ser uma alternativa para fortalecer o sentimento de pertencimento entre os habitantes e, assim, perpetuar legados culturais e promover o desenvolvimento social.
O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior — CAPES — Código de Financiamento 001.